Ainda que o mundo pereça

Relatório

Quando eu ainda era criança, certa vez alguém me contou a história de uma terra habitada por pássaros completamente brancos. Um dia, porém, uma terrível escuridão teria surgido nessa terra, lentamente a enegrecendo os pássaros tocados por ela. No começo, as aves tentaram conter as trevas e isolar aqueles manchados por ela. Porém, foram esforços inúteis diante do avanço irrefreável das trevas. Eis que então surgiu dentre todos os outros um pássaro comum. Tomado de um sentimento inexplicável, ele mergulhou na escuridão, buscando lá dentro encontrar um meio de pará-la. Após um longo tempo imerso nas trevas, o pássaro enfim encontrou, no coração daquele mal, um grande abismo do qual tudo aquilo surgir. Armando-se de toda a sua força de vontade, o pássaro se jogou então para dentro do abismo, abrindo seu próprio peito para que ali se depositasse toda a escuridão que vazava para o mundo. Foi um longo e doloroso processo, mas bem-sucedido ao fim. O pássaro, porém, pagou o preço de seu ato: suas penas haviam se tornado negras, nem um traço sequer de sua cor original permanecendo. Vitorioso, o pássaro negro voltou para a sua terra natal, agora liberta da temível treva. Lá, não recebeu louros ou canções, mas apenas olhares amedrontados e rejeição. Suas penas guardavam a memória das trevas, lembravam a todos os pássaros daquele mal que se abatera sobre eles. Dizendo que a ave de penas pretas poderia contaminá-lo os outros pássaros decidiram expulsá-la daquela terra para todo o sempre.

Demorou muito tempo até que eu conseguisse compreender aquilo que estava por trás dessa história. Anos, na verdade. Foi necessário que uma série de eventos terríveis se acometesse sobre a cidade e sobre mim, antes que tudo fizesse sentido.

Numa noite quente de verão, quando o céu estava completamente coberto por nuvens, e uma estagnação estranha pairava sobre a cidade, eu cheguei junto a Atena e Lavínia ao cenário de um crime. Na noite anterior, o cadáver de um homem tinha sido encontrado em uma balança de precisão, num mercado, mutilado por garras e com uma espada cravada em seu peito. Nos cinco dias anteriores, outros dois cadáveres nas mesmas condições tinham sido encontrados em regiões próximas. A polícia ainda abafava o caso, porém, contatos haviam me passado a informação sobre as mortes, me jogando atrás de quem estivesse causando essas mortes.

As vítimas, pelo que a polícia já tinha descoberto, eram dois estudantes de uma escola municipal da região em que os corpos tinham sido encontrados. A terceira vítima, um professor dessa mesma escola. Assim que soube disso, fui até a escola para extrair qualquer informação que pudesse, mas os funcionários se recusavam a comentar qualquer coisa e até mesmo os outros alunos, movidos pelo medo ou sentimento similar, falavam muito pouco. Descobri apenas que os dois alunos eram ambos estudantes de uma mesma turma e o professor os dava aula. A conexão era natural e o culpado, era óbvio, devia estar naquela mesma turma. Rastrear os possíveis suspeitos não foi em si uma tarefa difícil. Um pouco de insistência me permitiu descobrir que um aluno tinha deixado de frequentar as aulas algumas semanas antes.

Embora parecesse estranho pensar que um aluno de quarta série pudesse estar causando mortes tão violentas como essas, o meu tempo tratando com o sobrenatural da cidade já tinha me ensinado a desconfiar de tudo. Tentei entrar em contato com os pais do aluno ausente, mas eles veementemente rejeitaram qualquer tentativa de aproximação. Precisei forçar minha mão e pedir para Lavínia para invadir a casa em busca de informações. Os resultados foram rápidos. A criança estava desaparecida desde quando deixara de frequentar a escola. Estranhamente, nenhuma queixa tinha sido prestada sobre o desaparecimento por ninguém. Quando confrontei os pais com isso, eles me fizeram ir embora.

A essa altura, estava tão claro quanto possível que a criança desaparecida era a chave de todo o mistério. Passei mais dois dias tentando recolher todas as informações disponíveis sobre ela, a família e a escola. Logo, surgiram relatos de bullying, negligência e favoritismo. Os dois garotos mortos eram de famílias ricas, o que desaparecera, apenas um bolsista do subúrbio.

No meio tempo dessa investigação, ocorreu a quarta morte. Dessa vez, a vítima fora a diretora da escola. Era óbvio que tudo aquilo se tratava de um caso de vingança, fosse quem fosse que estivesse por trás das mortes. Movi a investigação principal para os pais do garoto, deixando que minha Familiar, Atena, continuasse paralelamente buscando tudo que pudesse sobre o paradeiro do garoto. Os resultados, porém, foram desanimadores. Depois de três dias seguindo os pais, não descobri nenhum indício de que eles estivessem envolvidos com poderes sobrenaturais, tampouco que eles soubessem do paradeiro do filho.

Nesse interim, mais mortes. Um publicitário e uma policial militar. Encobrir todos os acontecimentos se tornava cada vez mais difícil e a pressão dos meus contatos policiais apenas crescia. Não só isso, mas o padrão que até então se mantinha constante havia sido rompido com as duas vítimas mais recentes. O método continuava o mesmo, porém não havia nada que correlacionasse o publicitário e a policial aos outros mortos.

O caso parecia estar rumando para um ponto crítico, quando Atena trouxe à tona uma pista vital. Ela passara por cada uma das cenas de crime em busca de testemunhas ou gravações de câmeras, porém, em cada um dos locais, logo antes da hora estimada para a chegada dos corpos, um blecaute se abatera. Mas não só os aparelhos elétricos como também carros, redes de telefone e aparelhos com bateria tinham se desligado por cerca de dez minutos. O mesmo havia acontecido nos lugares de onde cada uma das pessoas tinha sido removida antes de ser assassinado, pelo que a investigação policial me informou.

Sabendo disso e com um pouco de ajuda, consegui que me avisassem de qualquer blecaute subsequente. Por fim, me posicionei no centro da cidade à espera do sinal derradeiro. Quando ele enfim veio, vi surgir na Máquina do Mundo um pico de atividade anômala, maior do que qualquer outro que ela já tivesse detectado antes. O fenômeno se manteve ativo por cerca de dez minutos antes de cessar, reaparecendo então meia hora mais tarde, quando se manteve estável por outros dez minutos, enfim desaparecendo completamente. Os mortos, eu descobriria mais tarde, tinham sido um ator, um político e um vendedor de jornais.

A última peça que me levaria, enfim, ao núcleo de todo o caso viria no dia seguinte quando, subitamente, um grande blecaute se abateu sobre toda a cidade. Naquela madrugada coberta por nuvens pesadas, a queda de energia foi o suficiente para que a escuridão tomasse por completo toda a cidade. A Máquina do Mundo, enquanto isso, relatava imensas quantidades de atividade anômala partindo de um único ponto. Consegui que meu pai, usando de Magia, enviasse uma mensagem para Lavínia, pedindo a ela que me encontrasse no epicentro do fenômeno, enquanto, junto a Atena, eu mesmo me dirigia para lá.

 

 

Evento

A viagem até o núcleo da anomalia tomou uma hora de carro. A cerca de meio quilômetro de tudo, já era difícil não sentir o mundo se contorcendo ao redor, tentando a todo custo conter o fenômeno que se espalhava. Entre a escuridão absoluta, pequenas falhas no espaço começavam a se formar como rachaduras escuras num vidro revelando por trás de si formas estranhas, alienígenas. O mundo ao meu redor era então uma casa de espelhos prestes a se despedaçar.

— O que está acontecendo aqui? – Atena disse enquanto cruzávamos o mundo distorcido. – Eu não lembro de ter visto nada desse tipo. Quero dizer, não nesse nível. Parece tão… irreal.

Entrei em um túnel, apenas o farol do carro iluminando o caminho. Dentro daquele espaço limitado, o fenômeno era ainda pior. Pedaços inteiros do mundo normal já haviam cedido, em seu lugar se erguendo abismos infinitamente, incalculavelmente profundos, em que nadavam coisas que jamais deveriam ser. Tudo que eu via eram partes, fragmentos de estruturas e entidades que as leis da natureza nunca permitiram tomar forma, apenas aguardando, esperando para que uma fenda maior surgisse, dando a elas espaço o suficiente para atravessar o véu.

— Não importa o que seja, nós temos que parar – falei. – Uma anomalia desse nível não devia conseguir aparecer numa cidade… O blecaute deve ter facilitado, mas ainda assim…

Entre as fendas, eu sentia a pressão de algo a espreitar, apenas uma sombra, um sussurro nas trevas. Afundei o pé no acelerador até o carro sair do túnel.

Do outro lado, não estava mais a cidade, nem qualquer coisa que mãos humanas pudessem ter construído. A estrutura que se erguia para o alto, dominando o mundo com sua sombra colossal, uma torre vertiginosa, de mármore e azeviche, torta e espinhosa como uma árvore ancestral, jamais existira naquela cidade nem em qualquer outra cidade de qualquer outro país do mundo. Parada ali, no centro daqueles terríveis eventos, sua presença era como aquela dos monstros nos pesadelos mais terríveis, silenciosa e vigilante.

— O que é isso? – Atena se perguntou diante da revelação monstruosa.

Peguei do meu bolso a Máquina do Mundo, e vi seu pêndulo avançando compulsivamente em direção àquela torre.

— É o epicentro – eu disse. – A fonte disso tudo está lá dentro.

Atena se virou para mim, incrédula por um momento, e então forçando um sorriso nervoso.

— Você realmente vai querer fazer isso, não vai? – ela disse. – Apesar de parecer normal, na verdade você é louco. Eu já devia saber.

— Se essa anomalia continuar se espalhando, não tem como saber o que vai acontecer. A cidade inteira pode acabar com problemas.

— “Problemas”? Esse é um jeito bem leve de colocar… Eu não gosto dessa coisa. Esse tipo de fenômeno… Não sei se eu quero saber o que está fazendo isso.

— Você pode ficar, se preferir.

— Não me entenda errado. Eu estou com medo. Mas, não importa o que aconteça, eu não pretendo abandonar você, Mestre. Para todos os efeitos, eu não devia existir, então morrer salvando uma cidade não é a pior morte de todas. Por isso, não se preocupe. Eu pretendo fazer minha parte nessa sua pequena brincadeira de horror cósmico.

Ela parou de falar e, por um momento, seu olhar correu para a torre.

— Isso não quer dizer que eu gosto da situação, entende? – ela falou. – São coisas diferentes. Mas, como eu disse, sendo uma boa e obediente Familiar, eu vou te seguir para a morte, Mestre.

— Já falei que você não precisa me chamar de mestre.

— Eu lembro bem, Mestre.

O sorriso que Atena mantinha enquanto dizia isso quase chegava a disfarçar o nervosismo que toda aquela situação estava causando nela. Enquanto guardava a Máquina do Mundo, medi a torre o mais aproximadamente que pude. Tinha mais de trezentos metros, isso eu sabia. Quanto mais, porém, era difícil dizer. A certa altura, a inclinação causava efeitos estranhos, piorados pela distorção que já afetava a própria geometria do mundo. Sem luz, eu não podia nem mesmo distinguir silhuetas da cidade. Naquela madrugada, o mundo inteiro parecia ter sido devorado.

— Vamos entrar – falei.

Segui em direção à entrada da torre, uma grande porta de marfim e chifres, adornada em seu topo com o alto-relevo de uma balança. Já estava aberta. Sinalizei a Atena que se colocasse em guarda. Em resposta, ela puxou os leques que levava presos ao interior de seu casaco. Conjurei num instante uma Magia de proteção básica, apenas o suficiente para que eu resistisse a um ataque surpresa. E então, cruzei o portal.

Além da porta, estava um grande salão escuro, vazio e frio, a escuridão das paredes revelada pela luz estranha que surgia em surtos pelas janelas altas. No centro do salão, uma escada em espiral se erguia até o teto. Era sentada nessa escada que Lavínia estava.

— Demoraram – ela disse.

— Infelizmente, nós não somos gatos selvagens adeptos a correr por aí sem cansar – Atena devolveu. – Humanos não são capazes de coisas assim, sabia?

— Que tal eu quebrar alguns dentes para ver como fica esse seu sorriso idiota?

— Tão selvagem… Talvez você devesse colocar uma coleira nela, Mestre.

Lavínia se levantou e teria se jogado em cima de Atena caso eu não tivesse me interposto entre elas, a segurando de leve pelo ombro.

— Agora chega – falei para Atena. – Ninguém aqui tem tempo para isso, certo?

— Certo… Mestre.

O olhar de Lavínia tentava me fulminar com toda a sua força.

— Esquece isso – falei para ela. – Descobriu alguma coisa?

Os olhos dela insistiram em tentar me devorar mais um pouco, mas eventualmente um suspiro os acalmou, mesmo que temporariamente.

— Subi uns andares – Lavínia falou, se afastando de mim. – Tudo igual. Não dá para saber até onde vai, mas isso aqui é alto.

— Eis algo surpreendente – Atena sorriu.

— Não começa – falei e me virei para Lavínia. – Quantos andares você subiu?

— Dez e não achei nada.

Peguei a Máquina do Mundo e a vi reagir como nunca antes, girando em todas as direções descontroladamente, o ponteiro quase se arrancando de dentro do globo.

— A fonte tem que estar aqui, em algum lugar. Atena, consegue localizar alguma coisa?

Minha familiar tirou de seu bolso um giz, traçando com um ele quatro runas no chão. Após dois, três segundos de olhos fechados, Atena se levantou.

— Muito surpreendentemente, o epicentro é o topo – ela disse. – Não sei porque me dei ao trabalho de usar Magia.

— Qual o lance de Magos e lugares altos? – Lavínia perguntou.

— Quanto mais distante do senso comum, mais fácil é manifestar fenômeno estranhos – expliquei. – Mas por que você acha que tem um Mago por trás disso?

— E mais alguma coisa ia conseguir fazer isso?

— Não sei. Mas não acho que um Mago ia conseguir fazer alguma coisa dessa escala. O alcance e o efeito são simplesmente grandes demais.

— Então o que é que está fazendo isso?

— É o que vamos descobrir.

Pelas escadas, começamos a subir a torre, Lavínia ia à frente, como batedora, mas nada, em qualquer momento, surgia e a cada andar, apenas a torre nos cercava, sempre, a repetição dos andares idênticos escorregando com o tempo, mergulhando meus sentidos num constante dejavu, o desconforto começando a pesar como se meus passos me levassem mais e mais às profundezas de algum Oceano esquecido há milênios onde segredos inomináveis ainda repousavam inertes num eterno e levíssimo sono, enquanto eu cruzava dez andares, vinte andares, cem andares, incontáveis degraus espiralados, desconexos, indistinguíveis uns dos outros como um tom ascendente de Shepard.

As escadas terminaram após incontáveis degraus. À minha frente, vi surgir o que parecia ser o interior de um templo grego devorado pelo tempo, suas estátuas desmembradas e escurecidas, exceto por uma, aos pés da parede oposta, iluminada pela luz de uma chama fantasmagórica. Era a figura de uma mulher portando uma espada, um escudo e uma balança.

— Por que tem uma estátua da justiça aqui? – Lavínia disse.

— Essa não é a justiça – Atena falou. – É Adresteia. Deusa da retribuição e da vingança.

— Muito diferente. E por que tem uma estátua dela aqui?

As pilastras dali, por mais que estivessem danificadas e envelhecidas, eram claramente de mármore, cortadas ao estilo grego. Toda a construção daquele lugar era indistinguível de como eu imaginava ser um templo da Grécia antiga. Foi tocando aqueles pilares que a revelação me surgiu, ainda que minha mente tenha se recusado a aceitá-la a princípio. A confirmação das minhas suspeitas, porém, veio com o bater de asas e o despencar em meio ao salão da figura monstruosa daquela criatura. Era como uma representação monstruosa de uma harpia, retirada dos sonhos terríveis de Bosch, ao mesmo tempo paródia insana de mulher e ave de rapina. A criatura, erguendo sua desproporcional cabeça de mulher-demônio, abriu suas asas como mãos, lentamente se dirigindo a mim e as garotas.

— Ímpios! – ela gritava. – Profanadores! – ela urrava. – Ousam sujar o templo sagrado, pisar aqui sem oferta ou submissão? Ousam invadir o chão sagrado com a intenção abjeta de enfrentar a Inescapável? Impuros e infiéis! Pisarei em seus cadáveres e esmagarei suas cabeças! Seus corpos jamais serão enterrados, seus ossos servirão às bestas! Imundos!

De asas estendidas em fúria, a harpia saltou contra nós. Recuei rápido para trás de uma coluna, as garras da fera me errando por milímetros. Vi a forma de Atena recuando mais ao fundo e Lavínia, escondida mais distante, revelando-se somente para mim.

— Foi você quem deixou a cidade nesse estado? – eu perguntei.

A besta se lançou ao redor da pilastra, pisando com todo o seu peso onde eu estaria caso não tivesse recuado a tempo. A harpia me seguia ágil e furiosa, sua cabeça se movendo incessantemente, seus olhos girando incontroláveis nas órbitas, procurando por algo para devorar.

— Eu não sou mais do que um instrumento da vontade Inescapável – a harpia disse. – Aqui para exercer a justiça divina. Essa terra é cruel e injusta, governada pela arrogância e a soberba, controlada pelo orgulho cego de homens que abandonaram a retidão e a peidade!

— E que crime você está punindo? – eu perguntei.

— O crime da violência contra os fracos, da inação dos responsáveis. Mas quantos outros pecados eu poderia punir? Se amarrasse cada pessoa a uma pedra e deixasse que as negras aves devorassem seus cadáveres, se arrancasse dos túmulos os mortos e desse seus ossos aos cães, se queimasse e salgasse toda a terra, ainda não seria feita a justiça! Esse mundo está além da salvação! Apenas a destruição absoluta pode começar a reparar os pecados humanos! Pois em que mundo homens se calarão ao sofrimento de crianças por dinheiro ou poder? Abjeto! Exercerei a divina ordália sobre este mundo!

A harpia serpenteava e urrava, suas garras agarrando colunas e nelas criando fendas profundas, suas asas como lâminas ameaçando destroçar qualquer corpo que se colocasse diante delas. Ainda escondido, sinalizei a Lavínia e Atena as escadas por onde havíamos vindo. Quando tive certeza de que as duas tinham entendido meu recado, conjurei uma magia, enchendo de luz todo o salão. Corri então na direção que lembrava estarem as escadas, mas antes que o clarão passasse, senti a presença da harpia se aproximando de mim. Rolando para o lado, evitei o pior, mas as garras dela logo se projetaram em minha direção. Saltei para trás e o golpe destroçou o chão. Forcei as lascas de mármore jogadas ao ar pelo golpe a se lançarem contra a harpia, rápida e potentes como balas. A criatura sequer se moveu. Seus olhos cravados em mim nem ao menos piscaram. Seu corpo se curvou então e, num ímpeto terrível, se atirou contra mim. Em pleno ar e sem tempo, teria sido atingido não houvesse o próprio espaço à minha frente se dobrado, reposicionando a investida da harpia a uma outra direção. Alguns metros atrás, via Atena sinalizando para que eu recuasse. Antes que o monstro pudesse se recuperar o suficiente para uma nova leva de golpes, me joguei para as escadas, descendo o mais rápido que pude para a segurança temporária.

 

Diálogo

Lavínia:           O que foi aquilo lá em cima? Por que tinha um monstro falando sobre justiça divina?

Atena:             Ela era uma Fúria. Criaturas da vingança. Gregas.

Lavínia:           Isso não explica nada.

Eu:                  Ela disse que era só uma serva, não foi? Que foi chamada para exercer ajustiça divina em nome da Inescapável.

Atena:             Ela devia estar falando da Adresteia. A deusa da estátua.

Lavínia:           Então ela é tipo um anjo da vingança?

Eu:                  É possível que anjos e fúrias venham da mesma fonte. Era comum representar o divino através das asas.

Atena:             Como o pênis. É verdade. Pênis com asas são bem comuns na arte greco-romana.

Lavínia:           Olha, eu não tô nem aí para essa conversa de vocês, ok? O que importa é porque aquela coisa estava aqui.

Eu:                  Acho que eu tenho uma ideia.

Lavínia:           Certo, Questão, resolva o mistério.

Eu:                   Acho que quem invocou aquela Fúria foi uma criança daquela escola. Quando eu estava procurando sobre as mortes das últimas semanas, descobri que as primeiras delas estavam ligadas a uma escola. Particularmente, à uma turma em específico. Fazendo mais algumas perguntas, acabaram admitindo que os dois garotos mortos tinham recebido várias reclamações de bullying. Algumas delas tinham sido feitas por um casal que tinha um filho desaparecido há umas poucas semanas.

Lavínia:           Isso até explica as coisas até a hora que a diretora morre, mas depois disso começou a ser gente aleatória. Não faz sentido.

Eu:                  Também achava o mesmo até ouvir o que aquela Fúria disse.

Lavínia:           E o que ela disse?

Atena:             Você não prestou atenção? Bem, eu não devia estar surpresa. Sempre suspeitei quanto às capacidades do seu cérebro de fazer qualquer coisa além de matar pessoas.

Lavínia:           Continua falando merda e eu vou arrancar sua língua fora.

Eu:                  Parem, vocês duas. Tem um monstro ancestral atrás de nós e eu tenho certeza de que nenhuma de vocês quer ser encontrada antes de ter um plano.

Lavínia:           Tá, que seja.

Atena:             Mas você acha mesmo que uma criança iria conseguir entrar em contato com uma deusa e conseguir convencer ela a conceder a ajuda de uma Fúria? Não sei nem se muitos Magos no mundo iriam conseguir fazer algo desse porte.

Eu:                  Eu sei. Mas não tem outra explicação. A cidade é propensa o suficiente a esse tipo de violência para justificar uma anomalia, especialmente com o que tem acontecido de dois anos para cá, e os blecautes permitiram que a torre surgisse escondida. Acredite, eu já vi muitas coisas absurdas acontecendo nessa cidade. Além do mais, ela provavelmente teve ajuda de alguém para preparar todo esse cenário.

Lavínia:           Então um moleque apanha e resolve chamar um monstro para sair matando gente só para se sentir melhor? Essa merda é muito errada.

Atena:             Acha mesmo? A lógica dela faz sentido para mim.

Lavínia:           O quê?

Atena:             Sei que deve ser difícil para você, mas pensa bem. Os dois garotos não foram punidos porque a escola decidiu acobertar eles graças aos pais ricos. O professor não fez nada porque a escola mandou não fazer, o que deu aos dois carta-branca para continuarem a perseguição. A diretora escolheu não fazer a acusação porque sabia que isso não ia adiantar de nada contra o dinheiro dos pais então abafou o caso. E os pais escolheram não punir os filhos porque foram ensinados que, desde que se tenha dinheiro, nenhum crime vai ser levado à justiça e, mesmo que seja, nada garante que algo aconteça, já que a justiça, sendo feita por homens, é passível de corrupção. A própria instituição do bullying é culpa da sociedade que autoriza esse tipo de atitude. Então o problema não está num indivíduo em particular, mas em todo o sistema que permite a esse indivíduo agir da maneira que age.

Lavínia:           Sério? Quanta merda uma pessoa consegue falar de uma vez só? A sociedade pode até facilitar, mas ela não obriga ninguém a fazer nada. Se aqueles dois pivetes resolveram tratar mal o outro é porque eles quiseram fazer. Ninguém obrigou. É a mesma coisa para o resto. Eles podiam não ter feito, mas fizeram.

Atena:             Acha mesmo que a sociedade não obriga as pessoas? As coisas não são tão simples assim, sabia? Muitas das atitudes são feitas porque são imposições sociais e quem se volta contra elas vai tomar repercussões. Se as drogas não fossem ilegais, uma imposição social, usar elas seria tão natural quanto beber ou fumar, que são atos tão prejudiciais quanto. Toda violência só é permitida porque a sociedade leva pessoas a esses extremos.

Lavínia:           Por favor. Se fosse assim, ninguém ia fazer alguma coisa que a sociedade não gosta. E isso é o que mais tem por aí. Não faz sentido achar que as pessoas agem como agem porque a sociedade deixa. Sempre teve gente corrupta e sempre teve gente honesta. São escolhas. E se alguém faz uma escolha ruim, essa pessoa tem que ser punida e não todo mundo ao redor dela. Se fosse assim, todos os pais de assassinos iam ter que ser presos.

Atena:             Não se trata de a sociedade favorecer um comportamento negativo, mas da natureza dela levar a esse comportamento. Claro que algumas coisas sempre existiram, mas elas só ficaram favorecidas porque o sistema atual permite através da opressão e da violência institucional. Por que você acha que tem mais crimes de trânsito aqui do que em outros países? Não é porque as pessoas fazem escolhas diferentes, mas porque a sociedade em que elas estão inseridas leva elas a uma escolha. Se você passar a vida inteira batendo em alguém, não pode esperar que essa pessoa não bata de volta uma hora.

Lavínia:           É óbvio que a pessoa vai querer bater. E isso não seria errado. Seria justo. Mas dizer que está tudo errado por causa disso não faz sentido. Acha que todo mundo é um filho da puta que sai por aí com uma vara dando nos outros? Não é assim que funciona. E se as coisas fossem desse jeito mesmo, gente rica nunca ia fazer merda nenhuma e isso é o que mais tem por aí.

Atena:             Essas pessoas só fazem isso porque foram ensinadas que estão acima da lei. A partir do momento em que o capital se torna mais importante que a vida humana, esse tipo de coisa acontece.

Lavínia:           Esse tipo de coisa acontece desde sempre. Humanos sempre foram assim, independente de sociedade. Achar que pessoas só fazem merda porque a sociedade leva elas a isso é burrice. Elas fizeram porque quiseram. Se não quisessem, não tinham feito. Até pode ser que a criação, a sociedade ou qualquer merda assim piore as coisas, mas não é essa simplicidade que você tá pensando, não. Pensa nesse caso. Tem muita gente que não tem porra nenhuma a ver com essa merda que tá acontecendo e vai acabar rodando porque o moleque quer vingança. Acha isso certo?

Atena:             Eu entendo que você não seja muito acostumada a fazer isso, mas tente prestar atenção no que eu digo quando estamos conversando, se não fica difícil. Eu não estou defendendo o que aquela Fúria quer fazer, eu só estou dizendo que a lógica dela não está errada. Que a culpa do que aconteceu com aquele garoto não está em uma pessoa só, mas está em toda a sociedade por permitir que esse tipo de coisa aconteça.

Lavínia:           Mesmo que a sociedade negue completamente alguma coisa, as pessoas vão continuar fazendo se elas quiserem. Não tem essa de “é proibido”. Proibido porra nenhuma. Desde quando isso para alguém? Se todo mundo dissesse que bullying é errado ou se tivesse um mundo perfeito, acha que as pessoas iam parar de fazer essas coisas? Não iam. Se estivessem a fim de bater, matar ou sei lá o quê, as pessoas iam fazer isso e a culpa seria delas e não de alguma coisa como “a sociedade”.

Atena:             Se você mantiver essa lógica e quiser só punir o indivíduo, o problema nunca vai ser resolvido. Simplesmente lidar com cada iteração de algo não é uma solução. Você precisa ir para a raiz de tudo se quiser de fato mudar algo.

Lavínia:           Se você for para a raiz de tudo, vai fazer o mesmo que aquele monstro quer fazer e matar todo mundo.

Atena:             Se os seres humanos fossem tão ruins assim, como é que eles poderiam fazer coisas boas? É um contrassenso.

Lavínia:           Você tá tomando absolutos demais. Para começar, “bom” e “ruim” são relativos. São só palavras que as pessoas usam para definir o que é conveniente. Achar que existe bem natural é estúpido. Humanos só tentam sobreviver e a única razão de não estarem por aí se matando é porque ensinam eles a se comportar.

Atena:             Mas então você concorda que a sociedade é o problema ao falhar em educar.

Lavínia:           Não. Porque se fosse assim, nunca ia ter surgido nada. Pessoas sempre têm escolhas entre impulsos opostos. Essa é a natureza das coisas. Qualquer um pode fazer a escolha certa se tiver a cabeça no lugar. A sociedade é só o que acontece quando todos se juntam. Ela não é a causa, é o efeito. Então não fica achando que as coisas já foram bonitinhas e arrumadinhas e todos andavam de mãos dadas e essa porra toda. Humanos são animais bons em matar. Sempre foram. Só isso.

Atena:             Esse tipo de pensamento fatalista nunca vai resolver nada.

Lavínia:           E você acha que o seu resolve? Gente como você só acaba fazendo ainda mais merda enquanto se finge de herói.

Eu:                  Terminaram? Agora a gente pode voltar a tentar resolver essa situação?

Lavínia:           Foi mal. Não devia ter caída na provocação dessa aí.

Atena:                         Não coloque a culpa em mim se você é uma presa fácil. Como eu podia resistir?

Eu:                  Não importa quem começou. Temos coisas mais importantes a fazer do que brigar.

 

Pensamentos

Não tive escolha. Não era como eu queria que tivesse terminado, mas diante daquela situação, o que eu podia fazer? Abandonar a cidade ser destruída por um monstro, todas as pessoas, inocentes ou não, sendo mortas sem nem saber o motivo? Como eu podia permitir que alguma assim acontecesse? Não posso dizer que aquilo que fiz foi o certo, nem ouso dar o argumento do mal necessário. Eu tomei a decisão, minha mão fez o gesto final. Fosse o que fosse, eu havia tomado para mim mesmo o posto de juiz e executor. Eu entendi, diante daquele conflito, o significado da história que um dia alguém tinha me contado.

Lavínia e Atena abriram o caminho para mim, distraindo a Fúria enquanto eu seguia em frente, em busca da raiz de toda aquela anomalia. No fundo, eu já sabia o que iria encontrar e essa certeza se revirava em perguntas dentro de mim. Quando a hora chegasse, eu seria capaz de fazer o que fosse necessário? E se fizesse, estaria fazendo a coisa certa? Cada degrau que ficava para trás era um segundo perdido na contagem regressiva que pendia sobre mim.

Minha chegada ao topo da torre trouxe apenas a confirmação da minha suspeita e com ela o crescer de todas as dúvidas que me acometiam. Estava ali, em cima de um altar ornado de oferendas caras e tesouros, cercado por círculos mágicos e pedras carregadas de energia. Ele estava, o garoto desaparecido, tornado na âncora que mantinha a torre e a Fúria no mundo real.

Quantos anos ele tinha? Não muito mais de dez. Será que sabia da escala que sua vingança tinha alcançado? Será que desde o começo não queria isso? Ou talvez tivesse apenas desejado punir os culpados e a Fúria, uma vez liberta, tomou as rédeas da vingança e decidiu alastrá-la para muito além do que era desejado. Se fosse assim, não seria por vontade daquela criança que tamanho desastre estava acontecendo, mas de sua inocência e confusão. Mas, mesmo assim, o resultado permanecia igual. Pessoas inocentes tinham sido mortas e muitas outras corriam perigo. Se nada fosse feito, quantos iriam morrer naquela mesma noite? Quantas outras crianças inocentes como aquela? Talvez ele não soubesse o que estava fazendo, mas a partir do momento em que trouxe algo tão terrível ao mundo, já não estaria culpado? Teria feito diferente se soubesse os riscos incorridos pelo seu ato? Era só uma criança incapaz de exercer seu completo juízo. Seria certo puni-lo por algo que não compreende? Mas se não fizesse isso, deixaria impune a morte daqueles que foram pegos no fogo cruzado? Não foi por culpa dele que tudo aquilo começou?

Nenhuma dessas perguntas era importante, eu sabia. Eu apenas fugia da decisão que se impunha a mim.

Me aproximei do altar na esperança de que houvesse outra solução para tudo aquilo, porém a pedra embebida no peito do garoto e as palavras tatuadas em seus braços, tronco e pescoço deixavam claro que eu não poderia escapar da escolha. O corpo daquela criança era ele próprio o cerne de todo o ritual, o pilar que mantinha a torre e a Fúria ali. Enquanto ele vivesse, aquele fenômeno prosseguiria.

A criança, subitamente, abriu seus olhos e me vendo à sua frente, perguntou se eu estava ali para machucá-la. Não respondi. O que poderia dizer? O que adiantaria dizer qualquer coisa? Apenas importava minha escolha. As palavras saíram sem que eu as tivesse notado surgindo. “Eu sou o pássaro negro”.

Era meu dever para com a cidade, para com todos que viviam ali. Não me cabia o direito de fugir, nem de tentar manter alguma farsa de pureza ao custo de inúmeras vidas. Renovando a decisão que há muito tempo havia tomado, escolhi, uma vez mais, sustentar em meus ombros todos os pecados do mundo, deixar entrar em mim toda a escuridão.

Eu matei a criança. Com minhas próprias mãos, sentindo a vida dela desaparecendo entre os meus dedos. Ninguém o fez por mim, ninguém me obrigou ou coagiu. De minha própria vontade, com minha própria força, eu matei uma criança confusa e assustada.

Logo, a anomalia começava a se desfazer, retornando o mundo vagarosamente a seu estado anterior. O processo, porém, se interrompeu em certo momento, provavelmente devido à inércia que já havia adquirido. Restava um elemento a ser destruído antes que tudo pudesse voltar ao normal.

Desci as escadas até o templo, meus passos ressoando com um peso que nunca antes havia sentido. No templo agora destruído pelos efeitos do combate, a Fúria, ferida, cobria com seu corpo o acesso ao nível anterior, enquanto Lavínia e Atena, em pontos distintos, mantinham a guarda-alta. As roupas de Lavínia, agora em farrapos, denunciavam a escala do confronto. Perguntei a ela quantas vezes ela tinha sido morta, mas ela se recusou a responder. Foi Atena quem deu, por fim, o número: “trinta e sete”.

Trinta e sete vezes. Trinta e sete mortes. Perfurada, cortada, desmembrada, esmagada, decapitada, rasgada em pedaços, ossos quebrados, músculos destroçados, órgãos rompidos. Trinta e sete vezes morta.

Recitei para mim o encantamento, cada verso marcado por um passo em direção à Fúria enfraquecida. Ela gritava ameaças e maldições, pragas e maus agouros. Não lembro quais, não os ouvia. Não me importavam. Que ela me amaldiçoasse por toda a eternidade, que me condenasse aos castigos eternos daqueles que por orgulho desafiam os deuses. Não faria diferença, não me faria recuar. Olhei nos olhos da Fúria e declarei contra ela minha própria sentença: “você morre aqui”. Saltei contra ela e lutamos, com toda a ira e violência de inimigos jurados. Deixei que as garras dela me cortassem e em troca, arranquei seus dedos, deixei que suas penas me atingissem e em troca quebrei suas asas. A feri trinta e sete vezes, nem uma a mais, nem uma a menos. Ela caiu por terra, seu corpo deformado pelas feridas, suas penas avermelhadas com o própria sangue que banhava agora o templo. Com o resto de ar que passava por sua traqueia exposta, a Fúria me acusava de sacrilégio, de pecados imperdoáveis, me dava nomes profanos. Na hora, ignorei a tudo, exceto pela última maldição, rogada numa voz que ecoava de algum lugar ancestral. A Fúria jurou pelo seu sangue derramado e pelo nome da deusa Inevitável que eu veria tudo pelo que lutei se desfazer em pó entre meus dedos. Quando a praga foi declarada, olhando nos olhos da Fúria, esmaguei sua cabeça monstruosa sob meu pé. Ela morreu assim e, com ela, se foi a torre e toda a anomalia.

Lavínia e Atena me encaravam, seus olhos transmitindo toda a certeza de quem sabia o que eu havia feito. Nenhuma das duas falou nada, embora eu soubesse que pensavam muito. Aos poucos, o blecaute cessava, porém, algumas das luzes da cidade jamais voltariam a se acender, manchadas, dali em diante e para sempre, pela escuridão daquela madrugada.

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