Contrafação – Capítulo III

Mime estava esperando fora do prédio, parada ao lado de um poste. Ao me ver descer, ela se aproximou, movendo a bolsa em direção à frente do corpo.

— Com isso, você fez a sua parte – ela disse. – Quanto fica?

— Ainda não acabou.

Ela olhou para mim, olhos apertados, cabeça virada de leve para o lado.

— Como assim? – ela perguntou.

— Para mim, parece que você está com problemas. E um tipo muito específico de problema, com o qual eu sou obrigado a lidar.

— Do que você está falando?

— Faz três anos que eu cuido dessa cidade. Pelo menos do lado sobrenatural dela. Se alguma coisa estranha acontece, se algum monstro ou anomalia aparece, eu trato disso.

Mime cruzou os braços, ainda me olhando daquele mesmo jeito pouco impressionado.

— Você é o quê? O xerife da cidade? E quem foi que decidiu isso? Você? Não sei que tipo de fantasia tem aí na sua cabeça, mas você não pode esperar que eu aceite isso.

Olhei ela diretamente nos olhos.

— Certo, você espera. Escuta, eu te contratei para me ajudar a encontrar o Frankenstein e não para se intrometer nos meus problemas. Você já fez o que tinha que fazer então agora pode ir embora. Estou indo.

Ela virou as costas para mim e saiu andando.

— Onde você está indo? – eu perguntei.

— Não tenho certeza ainda, mas espero que seja um lugar em que você não esteja.

— Você sabe pelo menos por onde começar a procurar o tal Schumann?

Como uma máquina subitamente desligada, Mime parou no lugar onde estava, seus ombros começaram a subir, seu pescoço a se curvar para frente, seus dedos a se cravarem nas palmas. Parecia algum tipo de transformação. Algumas das pessoas que passavam ao redor a olhavam, estranhando. Ela então se virou para mim, muitíssimo irritada.

— O que você quer?

Os que não tinham se virado ainda, agora dirigiam os olhares para ela. Uma mini comoção já ganhava forma ali.

— Posso te ajudar a encontrar ele, mas quando fizer isso, você não vai mais se livrar de mim.

Ela me encarou por alguns instantes, rosto fechado numa expressão que parecia querer comunicar alguma mensagem estranha. Depois desses instantes, ela abriu um sorriso de canto.

— Você é sempre assim quando quer alguma coisa? – ela disse.

Tranquilamente, ela parou na minha frente, me olhando nos olhos, já sem o sorriso.

— Você quer me acompanhar, OK, tudo bem. Apenas tente não atrapalhar.

— Não pretendo.

Saímos dali antes que a comoção aumentasse mais. Na primeira oportunidade, paramos perto do metrô. Liguei para um amigo, policial, e deixei o contato do tal Schumann com ele. Com um pouco de sorte, logo teria um retorno.

— É isso? – Mime perguntou assim que eu desliguei o telefone.

— É isso. Agora esperamos ele fazer a parte dele.

Mime cruzou os braços e abaixou a olhar para o chão.

— O que foi? – perguntei.

— Parece fácil demais. Não gosto de “fácil demais”. Sempre é uma armadilha.

— Isso é um jeito bem negativo de ver as coisas.

— Realista, não negativo. Se as coisas estão fáceis, é porque tem algo oculto. Nada nunca é fácil.

Enquanto falava, Mime tinha olhos estranhamente mais enevoados, perdidos olhando para algum ponto estranho no tempo. Quando notou meu olhar, ela correu os olhos para mim sem mover o rosto.

— Tem alguma coisa no meu rosto ou eu sou simplesmente bonita demais?

— Alguns anos a mais.

A cabeça dela tombou de leve para o lado e as sobrancelhas se ergueram. Não ficou muito tempo assim, porém. Logo, ela se ajeitou, balançando a cabeça.

— Estou indo – ela disse. – Me dá o seu celular. Amanhã eu te ligo para pegar o que o seu amigo policial disse.

— Sem chance.

— Perdão?

— Não vou te dar meu celular. Se eu fizer isso, você some. Eu te acompanho até ele responder. Não deve demorar muito.

Outra vez, aquela expressão.

— Agora você já está pedindo demais.

— Eu já disse, eu cuido dessa cidade.

— Só que sua brincadeira de xerife não é problema meu. Você pode fazer isso o quanto quiser, mas não vai me convencer a te deixar ir comigo.

Ela me olhava afiada e pontual, sem nenhuma brecha ou desvio, ombros levantados e cabeça erguida. Era um espírito diferente do de antes, certo brilho ou aura que fosse, que estava ao redor dela.

Acedi.

— Tudo bem. Anota o meu número. Pode me ligar por volta do meio dia de amanhã, a essa hora já devo ter tido retorno.

Ela sorriu e toda aquela aura já não estava lá.

— Perfeito. Viu como é bom quando a gente entra em acordo?

Ela pegou o número e então virou-se para ir em direção ao metrô. Antes que ela se afastasse, a segurei pelo ombro, rapidamente recitando um encantamento breve que me permitiria segui-la.

Quando sentiu minha mão em seu ombro, ela se virou, talvez confusa ou surpresa.

— O que foi agora?

— Eu só lembrei que não perguntei seu nome completo.

— Isso é importante?

— Considere uma formalidade necessária.

Mime cruzou os braços e apertou a expressão como se quisesse disfarçar algo que temia poder surgir em seu rosto.

— Acontece que eu não tenho sobrenome. Nunca tive.

— Entendo. Sinto muito por perguntar. O meu é Almeida. Daniel Fragoso de Almeida.

— Tá…

Soltei o ombro de Mime, e ela permaneceu na mesma posição, me olhando inquisidoramente por uns poucos segundos até, convencida de algo, se virar e novamente ir para o metrô.

Fechei meu olho direito e vi claramente o rastro vermelho que se formava atrás de Mime, fino e longo, como o cordão de Teseu, seguindo cada um de seus movimentos enquanto ela desaparecia em meio à multidão.

— O que você está escondendo? – murmurei para mim mesmo.

 

 

 

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