Contrafação – Capítulo IV

Esperei alguns minutos antes de começar a seguir Mime, apenas tempo o suficiente para que ela não desconfiasse de nada. O caminho dela seguia por algumas estações, mergulhando em direção à zona norte da cidade, até descer do vagão no terminal. De lá, ia para fora, descia escadas e escorregava pelas rampas, ganhava a rua, passava o Memorial e ia mais e mais a fundo, até, enfim, entrar num prédio. Um hotel, ou qualquer coisa equivalente, não muito grande e razoavelmente bem cuidado. “Bom”, para os padrões da região.

Fiquei alguns minutos observando a movimentação na entrada, mas só a recepcionista estava ali. Não parecia ter segurança – não era o tipo de hotel para onde quem se preocupa com isso vai. Lembrava, isso sim, os hotéis de filmes policiais. Naquela noite de lua clara, pairava qualquer coisa de noir sobre as cabeças dos prédios. Se alguém atiçasse bem o ouvido, talvez conseguisse imaginar um saxofone tocando ao fundo.

Pela janela, não teria como descobrir mais nada. Fechei meu casaco enquanto pronunciava o encantamento, prendendo a respiração ao passo em que passava pela entrada. Os meus passos batiam no assoalho de madeirite, mas o barulho passava longe dos ouvidos da atendente. Me dirigi para a escada, subi com o resto do ar que tinha em meus pulmões, seguindo o fio vermelho que serpenteava por ali, até vê-lo adentrar na porta de um quarto.

Tentei me aproximar, mas cada passo que dava apenas me distanciava mais daquela porta. Como em um pesadelo, o caminho à minha frente se prolongava, as paredes se curvavam para o próprio interior, se afunilando, se fechando, espiralando contra si mesmas em estranhas e tortuosas revoluções.

Parei de andar. Encostei minha mão na parede e deixei a minha voz entoando o encantamento correr por aquelas paredes, agarrando-as à força e as dando forma. Como eu imaginava, uma Magia.

O fio vermelho havia desaparecido.

Corri em direção à porta em que ele entrava. Deixei a energia correr para a minha mão e arrebentei a fechadura à força, jogando farpas de madeira e o trinco para dentro do quarto. Lá, havia vários objetos pessoais, roupas e uma mala jogados de qualquer jeito. A brisa entrava pela janela aberta. Saltei sobre a cama e fui até ela. Dali, vi Mime correndo no meio da rua.

Era o segundo andar.

Agarrei o batente e saltei pela janela. Concentrei tudo que podia nas minhas pernas antes que meus pés batessem contra o chão. Senti a pancada mesmo assim, dor subindo, um choque dos pés aos joelhos, na base do crânio.

Saltei para frente correndo até alcançar Mime e agarrá-la pelo ombro.

Azul e dourado.

Papel.

Uma doninha.

Meus calcanhares bateram de volta contra o chão, abri os braços para manter o equilíbrio.

Mime estava parada a cinco metros de distância, rosto fechado, uma mão apontada para a frente, outra abaixada ao lado do corpo. Nas duas, segurava leques japoneses, azuis e dourados, adornados de doninhas.

No canto do olho, vi um corte no meu casaco. Me endireitei, olhos travados em Mime, pernas prontas para me projetar.

— Você é uma Maga.

Os pés dela rasparam o chão recuando.

— Você estava atrás de mim desde o começo, não é? Por isso queria tanto saber onde eu morava.

— Atrás de você? Então você está sendo perseguida.

— Do jeito que você fala, eu poderia até mesmo pensar que você não está envolvido.

— Eu não estou. Você se entregou quando fez aquilo com o corredor. Mas aquilo não é uma Magia qualquer. Onde você aprendeu isso?

Avancei um passo em direção a Mime, a mão direita dela se levantou de leve, o pulso segurando um movimento do leque.

— Quem é você? E quem são esses que estão atrás de você?

— Acha que eu vou acreditar que você é só alguém aleatório? Eu posso não ser brilhante, mas você vai precisar de mais do que isso para me enganar. O Herrero te mandou, não foi?

— Não faço ideia de quem você está falando.

O punho dela subiu e desceu.

Pisei de volta no chão. Um metro para a esquerda. Meu dedo mínimo sangrava. Mime segurava então um dos leques sobre a cabeça, o outro à altura da cintura. Ela me encarava transformada em fúria, porém por trás daquilo, os olhos tremiam.

E a mão direita dela, erguida acima da cabeça, vacilava.

Rapidamente, conjurei uma Magia e foquei todo o meu olhar no corpo dela.

Oco.

O corpo dela era oco. Como um ovo cujo conteúdo fora retirado por um furo, por baixo da pele e dos ossos, o corpo dela estava oco. Só no peito eu via algo, brilhante e negro, como um órgão putrefato, rodeado de veias escuras que se ligavam a todo o resto do corpo, uma armação apodrecida após anos e anos, vazando em pontos, rachada em cantos, prestes a desmoronar.

— O que está acontecendo com você? O que é esse corpo?

Dois passos para os lados, um para frente. Senti o sangue escorrer de mais um corte, agora na minha perna esquerda.

— O que você viu?

— Seu corpo está caindo aos pedaços. O que quer que esteja acontecendo com você, já está avançado.

Mime continuou parada na mesma posição alguns momentos, toda a expressão sumindo de seu rosto a cada segundo, até não sobrar nada. Sem muito cuidado, ela dobrou os leques e os prendeu no cinto que usava.

— É só isso? Então você não é um mentiroso? Pena. Pelo menos não é problema. Só curioso demais.

— Você já sabia disso?

— Eu sei quando eu não estou bem. É o meu…

Ela se deteve e sorriu.

— Uma cópia imperfeita é só isso. Imperfeita. Independente de quão bom seja a mão que copia, uma falsificação jamais será a coisa original. Então, é natural que ela comece a cair aos pedaços. Farsas não são feitas para durar.

Ela balançou a cabeça e me olhou, meio sorriso no canto da boca, nenhum nos olhos.

— Dito isso, tudo que eu quero é a informação que te pedi. Não é uma história em que valha a pena se envolver.

— Se tem alguém atrás de você, eu quero saber por quê. É o que eu faço.

— Você é sempre tão insistente quando tem garotas no meio? É um complexo? Você perdeu alguém?

Meu rosto deve ter reagido ao que ela disse, o reflexo da minha expressão na expressão dela gritava isso. Pretendi avançar, mas meus olhos caíram ao redor, nos pontos brilhantes que nos cercavam. Vários e vários pares, encarando a nós dois.

Tinham quinze ou vinte deles ali… cães. Vira-latas, na maioria. Todas as cores, raças e tamanhos. Ordenados e parados, esperando como um pelotão de fuzilamento. Mime seguiu meu olhar e suas mãos começaram a descer em direção aos leques.

— Parece que nós demoramos tempo demais aqui, “protetor da cidade”.

Os cães continuavam parados, sem qualquer expressão ou movimento.

— O que é isso?

— Controle mental.

— Mas quem fez isso?

Os olhos de Mime passaram por tudo ao redor, de chão ao teto, até pararem atrás de um poste. Ali, escondido como algum monstro de filme de terror, tinha alguém, encurvado e sombrio, seu corpo coberto por um sobretudo brotando das sombras, seus olhos lentes brilhantes refletindo a lua como miras de rifle.

— Um caçador de Magos. Achei que tivesse despistado ele.

Os cães ainda esperavam o comando. Diretamente ao redor, não havia muitas pessoas, mas era uma área movimentada. Com a quantidade de animais que havia ali e isso…

Um dos cães começou a rosnar. Grande e forte, parte Rottweiller. Ele saltou à frente, logo seguido pelos outros. Latidos, patas no asfalto, sombras rápidas na noite. Empurrei Mime para trás e tapei os olhos dela.

Luz.

Estalei os dedos e o clarão estourou, uma explosão súbita e brilhante o suficiente para cegar – mesmo só temporariamente – todos ao redor. Tirei a mão dos olhos de Mime e a encarei.

— Vem comigo ou não?

— Agora nós brincamos de Capa e Espada?

Senti o peso dos dedos dela no meu rosto, mas o sorriso estava ali.

— Vamos.

Por um segundo, pretendi dizer algo, mas a situação me forçou a desistir. Partimos correndo, aproveitando os segundos que restavam antes que os cães se recuperassem. Não foi muito, logo ouvi outra vez os passos dos cães nos perseguindo e vi, no alto do prédio, avançando pelas paredes como algum monstro sombrio a se arrastar, o caçador, mais rápido do que podia imaginar que era.

No canto do meu olho, vi um brilho.

Do chão e de cima, fechando como presas sobre mim, vinham correntes. Empurrei Mime para longe enquanto eu girava para o lado. Minha perna travou e fui puxado para o chão. A corrente estava ali. O caçador correu prédio acima, me arrastando junto a ele. Agarrei-a e forcei com tudo que podia, mas força nenhuma adiantava. Comecei a conjurar o mais rápido que podia, queimando energia para tentar terminar antes de ser levado para o alto.

No tempo que pronunciava o encantamento, senti uma rajada de vento passar perto de mim, seguida do estrondo de um impacto potente. O puxar das correntes sumiu, coloquei as mãos sobre elas, desfazendo a magia que as mantinha. Como areia, as correntes se partiram.

Os cães se aproximavam rápido.

Logo à frente, havia uma loja de móveis.

— Para lá! – gritei para Mime.

Me levantei chutando o chão e partindo para onde eu havia apontado. Cheguei pouco antes de Mime, forcei a porta na corrida, estourando-a. Esperei ela entrar e agarrei o primeiro sofá que vi, empurrando-o contra a entrada.

— E agora?

— Para os fundos!

Passamos a entrada da loja até onde uma porta dava para algum lugar. Chutei ela e atravessei. Do outro lado, um beco. Na pressa, apenas corri, virando para garantir que Mime me seguia de perto. Logo, no fim do beco, achamos uma rua movimentada.

Virei para trás, a tempo de ver o caçador parado no beco, escondido no meio das sombras por um momento, antes de desaparecer, fundindo-se à noite, o brilho de seus óculos sumindo dentro das trevas. Encarei Mime, que arfava ao meu lado, cabeça baixa, mãos nos joelhos. Ela ergueu a cabeça para mim, reconhecendo meu olhar, e então acedeu.

— Tudo bem. Você não está com o Herrero.

— Não. E agora eu espero que você tenha uma explicação muito boa para me dar, porque eu não vou te deixar escapar até eu entender essa história inteira.

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