Contrafação – Capítulo VI

Fomos de taxi até a loja do meu pai, o antiquário solene e discreto escondido num bairro qualquer. Destranquei a porta e entramos. A atenção de Mime logo foi sugada pelos objetos estranhos que ficavam eternamente largados nas prateleiras dali. Entre estátuas velhas e sujas e instrumentos misteriosos, ela tocou tudo que via. Quando se cansou, ela virou para mim.

— Você não devia avisar que chegou?

— Relaxa. Ele já sabe que a gente está aqui.

Mime me olhou, confusa, mas logo deixou isso de lado ao ver descer pelas escadas o homem alto com aqueles olhos atrás dos óculos quadrados. A primeira troca de olhares foi breve, talvez tenha durado alguns segundos, mas não mais do que isso. Mime pareceu pretender falar algo, porém, como se alguma coisa a tivesse calado, desistiu.

— Dessa vez você trouxe algo interessante, Daniel – meu pai disse.

Ele cruzou os braços e se aproximou de Mime, olhando-a do alto de seu tamanho. Enquanto meu pai se aproximava, ela recuava devagar, cautelosa e espantada.

— Pega leve com ela. Ela teve um dia difícil.

— E ainda deve estar tendo. Considerando que é, provavelmente, um dos últimos.

— O quê?

Me virei para Mime, esperando ver nela surpresa, espanto ou medo.

Não tinha nada disso.

Ela parecia surpresa, sim, mas não como alguém que descobre estar prestes a morrer. Era só a surpresa de alguém que descobre em outra pessoa uma habilidade inesperada.

— Isso é verdade? – eu perguntei a ela.

Mime sorriu com o canto da boca, abaixando a cabeça de leve, me olhando por baixo.

— Até hoje de manhã, não era, mas as coisas mudaram um pouco…

— O que você quer dizer?

— Até hoje de manhã, minha reserva de Mana estava um pouco mais alta, mas acabei gastando demais com toda a correria e os problemas dessa noite. Se não tivesse acontecido nada disso, eu acho que conseguiria aguentar até o fim da próxima semana. Infelizmente, alguém acabou forçando minha mão.

Ela falava e em sua voz não havia o menor rastro de medo. Talvez cansaço e alguma frustração, mas medo nenhum.

— Não é só o corpo que é o problema. O que é você?

— Uma quimera – meu pai disse. – Num sentido amplo, eu quero dizer. Um produto feito da soma de partes diferentes. No caso dela, um corpo e uma alma. Embora, ao que me parece, os dois pareçam ser da mesma fonte.

— Isso é verdade. Tanto meu corpo quanto minha alma são cópias da mesma pessoa. Na prática, eu, como um todo, sou uma cópia dela. Exceto pelo coração.

— Provavelmente o coração é a âncora usada para gerar o fantasma que está movendo esse corpo. Em essência, isso te tornaria um tipo bastante incomum de morto-vivo, algo como um espírito que possuiu um cadáver. Mas como o corpo possuído é idêntico ao que o fantasma reconhece como seu, ele se sentiu livre para demonstrar habilidades anômalas. Isso não muda o fato de que o corpo e a alma não estão ligados intrinsicamente e sem a energia para controlar o processo, os dois se rejeitam. Eu não sinto nenhuma Onda vindo de você, então suponho que toda a sua fonte é externa.

— O que isso tudo significa? – eu perguntei.

— Que ela é, antes de mais nada, um Familiar. Um pseudo-espírito criado para servir um Mago. E provavelmente ele está atrás dela nesse mesmo momento.

Meu pai começou a andar ao redor de Mime, medindo-a com os olhos. Mime não se movia, mas seus olhos nervosamente tentavam acompanhar o movimento do meu pai, seus dedos tamborilavam nas coxas, sua respiração se acelerava.

— Estritamente falando, não parece ter nada de fisicamente especial em você. O corpo é só o corpo de uma garota comum e um fantasma artificial nem mesmo é capaz de gerar mana, então posso descartar que o interesse estivesse no seu talento mágico inato. Então, a resposta é…

Ele parou entre Mime e eu, seu corpo eclipsando parcialmente a figura dela, revelando apenas metade da expressão agora conturbada dela.

— Você tem uma habilidade anômala. E uma valiosa, sem dúvidas.

Expliquei a ele tudo que Mime tinha me contado, desde sua criação até o Liber Orationibus. Quando terminei de falar, meu pai, agora já posicionado atrás de seu balcão, acedia devagar.

— Com algo tão valioso dentro de você, não tenho dúvidas de que muitas pessoas iriam tentar te capturar.

— Se você não tivesse dito isso eu nunca ia desconfiar disso. Obrigada pela ajuda.

— Não sou eu quem está te ajudando, é o Daniel. Eu apenas estou aqui para oferecer algum suporte com o plano que ele vai executar.

Mime abriu a boca para falar algo, mas desistiu e abriu meio sorriso irritado.

— Entendi – ela disse – Ser detestável é um traço de família.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s