Contrafação – Capítulo IX

Esperei o Caçador se afastar com Mime o suficiente para não notar quando eu comecei a segui-lo. Ou melhor, quando comecei a seguir o rastro vermelho deixado por Mime graças à Magia que coloquei nela. Ele a levou primeiro para o que me pareceu um esconderijo, um barracão na Zona Leste, no meio de uma favela. Ao redor do barracão, havia pelo menos uns sete cachorros rondando. Me mantive longe o suficiente para eles não me notarem, escondido na laje de um barraco, observando a movimentação dentro do cativeiro com um binóculo. Demorou para o Caçador sair da forma que ele mantinha na rua, mas quando o começou… talvez não devesse, mas não consegui evitar a surpresa.

Foi como se uma cortina de correntes de repente caísse, perdendo sua forma original, assumindo aquela de algo que, de longe e apenas levemente, lembrava o esqueleto de um homem, se não na estrutura, ao menos no perfil ou qualquer coisa de aparência. Um esqueleto de correntes, cinzento e enfraquecido, totalmente construído pela infinidade de elos. Talvez um dia aquilo tivesse sido humano, mas mesmo que esse fosse o caso, àquela altura já não tinha mais nada de humanidade sobrando naquilo.

Depois de se mostrar como era, o Caçador pegou algo que me pareceu ser um celular. Ele falou com alguém por algum tempo antes de desligar e então começar a se reconstituir na forma anterior. Quando tinha voltado a seu estado estranho, ele pegou um lençol e enrolou Mime nele, como alguma encomenda macabra, prestes a ser enviada pelo correio.

Depois disso, ele embrulhou alguns objetos em panos, guardou outros em caixas. Tudo tomou cerca de meia hora. Quando tudo estava terminado, ele deixou a casa com Mime num braço e as malas em outro. Já fora, ele abaixou-se perto dos cães, acariciou a cabeça de cada um deles e só então partiu, se agarrando às sombras e saltando entre as lajes de barracos e postes.

Voltei para o carro e fui seguindo o rastro vermelho deixado para trás por Mime. Com o tráfego carregado em alguns trechos, os caminhos difíceis em outros e a grande vantagem de mobilidade do Caçador, já sabia que ia chegar bem depois dele. Não teve jeito. Quando vi o rastro acabando na cobertura de um prédio de alto padrão, já sabia que aquele era o lugar. Parei a umas duas quadras do condomínio e segui a pé. Conforme me aproximava, conseguia ter uma noção básica da segurança do local. A maior parte, pelo visto, era eletrônica. A portaria só tinha um segurança, provavelmente não havia outro. A entrada do estacionamento subterrâneo ficava logo ao lado da entrada de pedestres. Não era muito alto, mas tinha duas ou três câmeras vigiando.

Me aproximei do muro ao lado do estacionamento. A primeira câmera apontava para quem entrava. Foquei na guarita e comecei a aumentar a temperatura lá dentro. A noite estava quente, o segurança de terno. Não demorou mais de um minuto para ele sair, ajustando a gravata, suando. Aproveitei o momento e descarreguei a segunda Magia contra a câmera, um soco projetado à distância, forte o suficiente para arrebentá-la. Pulei o primeiro portão e acessei a parte interna. O acesso da garagem ainda era protegido por um segundo portão, eletrônico, mesmo que alguém pulasse o primeiro, não ia conseguir entrar sem uma chave ou algum truque. Por sorte, a maioria dos prédios não é projetado para se defender de um Mago. Encostei no portão, criando na minha cabeça uma imagem mental de toda sua estrutura. Localizei o receptor da chave eletrônica e de resto um pequeno curto-circuito resolveu. O portão começou a se levantar, fazendo barulho. Antes que o segurança tivesse tempo de me notar, rolei para dentro da garagem.

Encostei na parede, o ponto cego mais possível, e foquei a mente no ambiente geral, localizando duas outras câmeras, doze carros e o elevador, bem no centro da garagem. Os pontos cegos eram poucos, mas por sorte os carros estavam no caminho. Me movi usando eles como escudo, me aproximando das câmeras até a distância em que poderia destruí-las. Quando a segunda caiu, tentei sentir se havia qualquer sinal de vida ali. Silêncio completo.

Chamei o elevador. Assim que a porta abriu, causei um curto-circuito na câmera. Provavelmente seria a última delas. O prédio tinha quinze andares, fora os dois níveis de subterrâneo. Apertei o botão do último andar e o elevador começou a subir, devagar e pesado, andar após andar.

No décimo, ele parou. As luzes normais se apagaram e as de emergência acenderam. Um silêncio rompido só pela estática da eletricidade se apossou do elevador.

No fim das contas, fracassei em entrar despercebido.

Empurrei a saída de emergência e subi para o vão do elevador.

O barulho de metal serpenteava ao meu redor, infestava o ar como um enxame de gafanhotos famintos.

Ergui o olhar.

Uma teia de correntes se erguia acima, incontáveis elos se juntando numa estrutura interminável, travando toda a passagem, descendo do teto como tentáculos de algum monstro Lovecraftiano. No centro de tudo, pendendo como um sino, estava a cabeça do Caçador, me encarando por trás de seus óculos brilhantes.

Cerrei os punhos e encarei de volta. A cabeça escorreu devagar até ficar frente-a-frente comigo, o cheiro de metal enferrujado saindo de toda ela, seus movimentos mecânicos se repetindo numa tentativa desprezível de humanidade.

— Eu vim salvar a Mime. E você não vai me parar.

A cabeça virou-se para baixo, girou ao meu redor como uma máquina a me avaliar, até enfim começar a recuar de volta para junto do resto de seu corpo. Lentamente, as correntes ao redor serpenteavam na minha direção.

Respirei fundo e deixei a energia explodir das minhas mãos.

A eletricidade explodiu em fagulhas, partindo do elevador e das paredes, se distribuindo pelas correntes, se espalhando num segundo por toda a estrutura de correntes que formava o Caçador. A cabeça se contorcia conforme a eletricidade a atravessava, escurecendo o metal, espalhando o cheiro de aço queimado por todo o fosso.

Ainda eletrificadas, as correntes deram o bote contra mim. Saltei para trás enquanto elas rasgavam o teto do elevador. Mais e mais correntes se projetaram contra mim, uma chuva de lanças ou flechas abrindo buracos no fosso, destruindo todo o concreto e o metal que entravam em seu caminho.

Eu saltava de lado a outro, me agarrando no que podia para manter a altura, escalando o fosso da melhor maneira que podia enquanto esquivava dos ataques incessantes do Caçador. Era como lutar contra um ninho de cobras. Senti meu pé ser agarrado e me soltei, girando o corpo e golpeando com toda a força de um soco fortalecido por Magia. A corrente se estourou, mas logo outra tomou seu lugar. Arrebentei essa e mais duas vieram no lugar dela, me puxando para o meio do fosso enquanto uma dúzia de pontas mergulhavam contra mim. Descarreguei outra rajada elétrica e chutei as correntes, conseguindo me libertar e agarrando uma única corrente com toda a minha força, mergulhando para baixo.

Pisei no elevador e rolei no chão enquanto as correntes destroçavam tudo ao meu redor como algum tipo de monstro faminto por destruição. Prendi a corrente que segurava no teto do elevador e então, com um golpe, arrebentei o cabo. As travas de segurança, já destruídas pelo Caçador, não puderam fazer nada para impedir que o elevador começasse a despencar em alta velocidade. Me agarrei à parede enquanto o enxame de correntes era arrastado para baixo, desaparecendo no escuro do fosso. Segundos depois, ouvi o explosivo estrondo do elevador contra o chão, enquanto a poeira projetada pelo impacto subia pelo fosso.

Respirei por um momento e olhei para cima. Ainda tinha muito que escalar.

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