Contrafação – Capítulo VII

Pelas 17h do dia seguinte, tudo estava pronto. Pouco antes disso, a resposta do meu amigo policial finalmente chegou, entregando a mim um endereço onde, segundo ele, o homem que levou Mime até Frankenstein morava. Às 19h, saímos da casa do meu pai direto par esse lugar.

Depois de uma hora de viagem muda, chegamos a uma casa abandonada pela história. Um dia, aquilo provavelmente tinha sido uma construção imponente e bem cuidada, adornada de estátuas, tapeçarias e janelas decoradas. Hoje, as estátuas sujas e quebradas nem mesmo choravam e dos vidros não sobrou nada. O portão estava aberto – o cadeado já devia ter se partido muito tempo antes. No quintal, pilhas e pilhas de lixo jogados, provavelmente, pelos vizinhos. Entre latas de cerveja e pedaços de madeira apodrecida, quebrada e suja, havia uma cruz de mármore. Ao vê-la, Mime suspendeu todo o seu movimento. Seu olhar, subitamente capturado pela imagem, ignorava tudo mais. A passos atrasados em anos, ela despencou até a cruz. Ajoelhada diante daquele pedaço de pedra, ela esfregou as mãos sobre o nome inscrito nos braços até fazê-lo surgir por completo, agora desgastado pela chuva e o mato. “Alexandra Schumann”.

— Isso me lembra de uma história idiota sobre um homem que passou a vida toda tentando voltar para casa e quando conseguiu, descobriu que não tinha mais ninguém lá. É uma história bem idiota. O que ele achava que ia encontrar depois de todo aquele tempo? É tolo.

Ela continuou parada ali, diante da cruz, até seus ombros caírem e um sorriso amargurado aparecer.

— Achei que fosse ser mais difícil. Pelo menos agora posso morrer em paz.

— Você não vai morrer.

— Não? O que te faz pensar isso?

Caminhei até o lado de Mime. De pé, vendo-a em frente à lápide, me ocorreu a imagem de dois espelhos se afastando.

— Alexandra não combina com você. Realmente, não é o nome certo. Não que Mime seja.

— E qual é o nome certo então?

— Atena. Como a deusa.

Mime me olhou por um momento e então abaixou sua cabeça, rindo para si mesma.

— Que óbvio.

Ela se levantou então, limpando sua calça e suspirando, voltando enfim sua atenção para a casa atrás de nós.

— Ainda quero ver isso.

Concordei.

A porta da casa já tinha sido arrombada. Não havia móveis, as marcas no chão deixavam claro que todos tinham sido arrastados para fora por alguém. Pedaços de estátuas e vasos se misturavam ao pó e à sujeira, um cheiro profundo de mofo vindo de cada fresta no chão e nas paredes. Cômodo a cômodo, a mesma visão surgia. Nada tinha sobrado para contar qualquer história que tivesse acontecido ali. Eventualmente, subimos as escadas indo parar no nível dos quartos. Todas as portas já tinham sido abertas e tudo de valor roubado e aquilo que não podia ser vendido, destruído. Restava, porém, uma única porta trancada. Não precisei me esforçar muito para notar a Magia que protegia aquela porta, muito menos para perceber quão forte ela era.

— Alguém colocou uma Magia de proteção nessa porta. Não sei se consigo quebrar.

— Não precisa.

Mime surgiu atrás de mim, sua expressão distante. Sem esforço algum, ela desceu a mão sobre a maçaneta, abrindo então a porta. Antes que eu tivesse tempo de perguntar, ela entrou no quarto. A segui de perto.

O quarto que surgiu era, sem dúvidas, o de Alexandra Schumann. As fotografias e as prateleiras de livros deixavam isso claro, sim, mas os movimentos de Mime por aquele espaço, movimentos como os de alguém que retorna após décadas ao lar original, eram toda a prova de que eu precisava. Cuidadosamente, ela abriu gavetas, armários, cheirou roupas, levantou decorações caídas, folheou cadernos, deitou-se na cama, o rosto mergulhando no travesseiro, desaparecendo, tenho certeza, entre memórias guardadas ali. Caminhei até a janela, de lá se tinha uma visão direta do jardim que, um dia, deveria ter sido tão bonito, e ao longe, muito longe, da skyline de prédios a se expandir dia após dia.

Quando Mime se levantou da cama, tinha em suas mãos um colar dourado, ornado de uma grande única, grande pedra azul.

— Era da mãe dela. Da mãe da Alexandra. Ela ficou com o colar depois que a mãe foi embora de casa. Na época, a Alexandra tinha doze anos, então já podia decidir. Mas a mãe não ia pedir a guarda de qualquer jeito, ela sabia disso. Ela queria ficar livre.

Ela parou de falar, ergueu o colar diante de seus olhos, a pedra azul refletindo luz em seu rosto.

— Isso aqui é só o que sobrou dela. Se ela estiver viva, acha que ela me reconheceria como filha? Como a Alexandra? Dizem que mães sempre conseguem reconhecer um filho, independente de quanto tempo passe.

Mime colocou o colar ao redor de seu pescoço, por baixo da camisa, seus dedos se demorando sobre a joia.

— Você sabe o que aconteceu com o pai da Alexandra?

— Ele morreu vinte anos atrás. Ataque cardíaco fulminante, segundo o laudo.

— Mais ou menos quando eu fui feita. Então é isso… Ela era inteligente.

— O quê?

— Alexandra guardou parte das memórias dela nesse colar, talvez por segurança, caso alguma coisa acontecesse. O Herrero já estava atrás dela, queria conseguir o Liber, mas ela se recusava a entregar. Achava que ele era perigoso demais para dar a alguém como o Herrero. Não vou dizer que ela estava errada.

— Entendo.

— Provavelmente foi o Herrero quem matou a Alexandra e o pai dela.

— Eu sei. Não se preocupe.

Mime acedeu. Mais uma vez, seu olhar percorreu todo o espaço daquele quarto, terminando, enfim, numa fotografia que mesmo coberta de pó, ainda deixava ver o rosto sorridente de uma jovem garota.

— Ela foi uma garota feliz. Aquela idiota.

Nos dirigimos para o meu carro. Já era noite, tinha esfriado bastante. Antes de deixar a casa, Mime fechou a porta arrombada. Toquei-a no ombro de leve e ela se virou para mim, balançando a cabeça e meio-sorrindo. Saíamos do quintal quando a primeira mancha surgiu saltando ao meu lado, dentes e olhos brilhantes.

Girei para trás com a força do impacto, girando no chão, movendo o braço com toda a força.

A mancha rodopiou no ar, até bater no chão, se reformando na figura de um pitbull. Ouvi lâminas de vento e o ganido de um cão, enquanto saltava de volta em pé, a momento de ver a multidão de olhos brilhantes no escuro.

Uma matilha inteira de cães se aproximava rápido.

— É ele! – Mime exclamou.

— Vai para o carro!

Disparei na direção de Mime, chutando o focinho de um enorme vira-lata preto que tentava mordê-la.  Outros cães se aproximaram pelos lados, ladrando, mordendo, babando enquanto se jogavam descontrolados em cima de mim sem a menor consideração de perigo. Devolvi com cotovelos, pernas e mãos cada mordida, sangue jorrando para o alto, estardalhaço de ossos fraturados bombardeando na noite.

O fogo do combate foi interrompido pelo barulho de correntes.

Me virei para trás e vi ali, de pé sobre o teto do meu carro, o Mago Caçador segurando suas correntes com uma mão. No fim delas, estava Mime.

— Mime!

Chutei a cabeça de um dobermann que tentava me abocanhar, rolei no chão e ao me levantar disparei na direção do Caçador. Acelerei ao máximo e saltei conjurando uma magia para disparar meu soco ao longe. Só acertei, porém, o ar, enquanto o Mago subia rápido para o alto de um poste, as correntes do outro braço lhe servindo de corda. De cima do poste, ele saltou para o seguinte e então para o que vinha depois daquele e outro e mais outro, até desaparecer no meio da noite, me deixando para trás enquanto os cães que restavam de pé se dispersavam pelas ruas ao redor.

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