Contrafação – Capítulo X

Empurrei a porta do último andar e saí do fosso do elevador. Ele dava direto na entrada da cobertura. Toquei a porta e senti, claramente, a barreira mágica erguida ali, poderosa demais para que eu pudesse simplesmente dispersá-la rápido. Não havia janelas ali, então a única entrada era a porta.

Forcei a maçaneta e entrei.

A cobertura era grande, branca e decorada com antiguidades, tapeçarias e pinturas barrocas. Logo na entrada, um enorme relógio marcava com seu pêndulo o passar do tempo. Gerei na minha cabeça uma imagem mental de todo o ambiente, até encontrar um ponto cego. Provavelmente, era o Estúdio. Segui direto para lá, conjurando no caminho algumas defesas.

Logo onde o ponto cego começava, havia uma porta de madeira, pesada, entreaberta. Pela brecha escapavam os gritos enfurecidos de um homem. Era o lugar certo. Chutei a porta e entrei.

Meu braço se colocou entre meu rosto e um candelabro que vinha na minha direção. Senti o metal amassando e então recuando para um segundo golpe. Estiquei a mão e torci o braço que me atacava antes que ele pudesse bater de novo. Uma olhada rápida ao redor revelou Mime no chão, machucada. Me virei para o homem que me atacara e apertei mais o braço, até sentir os ossos dele se partindo. Enquanto o velho gritava de dor, torci seu braço até fazê-lo se ajoelhar.

— Você demorou – Mime falou.

— Desculpe. Tive alguns contratempos.

Herrero começou a tentar conjurar uma Magia, mas um soco na boca e alguns dentes a menos fizeram ele mudar de ideia rápido.

— Você já perdeu – eu falei.

— Quem você acha que é, seu moleque de bosta? Acha que isso vai ficar assim? Acha que você vai entrar na minha casa, me bater e sair limpo? Eu sou da Irmandade de Casteli! Você não quer ser meu inimigo!

Agarrei a mão direita dele e quebrei os cinco dedos. Deixei ele solto e então, quando ele finalmente parou de gritar, me abaixei até conseguir encará-lo frente a frente. No rosto dele, ódio e pavor se misturavam. Coloquei meu celular no chão e liguei o gravador.

— Eu vou te dar uma chance. Esse é um acordo formal, estabelecido entre você, um Mago, e eu, o representante de um, tendo Mime como testemunha. Você vai entregar a autoridade sobre ela para mim, vai embora dessa cidade até o próximo pôr do Sol e não vai voltar. Até lá, temos um cessar-fogo absoluto. Por fim, você nunca mais vai praticar Magia. Em troca, enquanto você obedecer esse contrato, eu não vou te machucar, não vou te perseguir, nem te procurar. Você aceita, incondicionalmente, esse acordo?

O medo e a ira no rosto de Herrero cresceram como água fervente, prestes a explodir. O rosto dele estava vermelho, a boca dele tremia. E então, tudo passou, ele abaixou a cabeça.

— Eu aceito. Mas você vai pagar por isso, moleque! Você vai aprender a não se meter com adultos! Eu vou destruir tudo que você tem, eu vou matar todas as pessoas que você conhece!

— Sai da minha frente.

Ele se levantou como um cachorro derrotado, saiu andando, ainda olhando para mim por cima do ombro, até desaparecer por trás da porta. Ouvi a risada de Mime vindo de perto e fui até ela.

— Adorei a cara que ele fez quando estava indo embora – Mime falou. – Aparentemente o prazer é um ótimo anestésico. Então, como eu estou?

Os ferimentos dela eram vários, mas nenhum parecia muito grave. O corpo, porém, estava no limite. Em diversos pontos, a carne estava começando a se desfazer, completamente tomada pela infecção.

— Eu posso te salvar. Ele passou seu controle para mim. Posso fazer o ritual e criar a ligação entre nós.

Mime me olhou como se não entendesse o que eu estava dizendo.

— Eu não tenho mais o Liber. Herrero estava certo, eu não tenho mais valor. Além disso, eu já achei a Alexandra e vinguei ela. Não tenho mais muitos motivos para continuar viva.

— Então me sirva. Se torne minha Familiar. Faz algum tempo que eu quero um. Planejava usar um pássaro, então acho que você é apropriada.

— Um pássaro?

— Uma coruja.

Ela começou a rir alto até parar com um gemido que deformou todo seu rosto por um segundo. Respirando com dificuldade, ela dirigiu o olhar para o alto.

— Eu sou só uma cópia. Uma imitação imperfeita de uma pessoa de verdade, sem qualquer valor ou beleza. Sabendo disso, você ainda me quer?

— Sim, eu quero.

Ela abriu os olhos, tentando fingir que estava entediada.

— Vou precisar de um nome novo.

— Atena. Como a deusa.  Apropriado, não acha?

Ela não respondeu. Vencida pelo cansaço, ela tinha caído no sono.

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