Linhagens – Capítulo III

Após o almoço, voltamos ao teatro para o resto das mesas daquele dia. Por algum motivo, o tempo pareceu passar mais rápido nessa segunda metade do evento. Em alguns momentos, olhei ao redor em busca de Fermi e Elisabete, mas só encontrei a segunda, e inevitavelmente Cordelia. Não conseguia evitar a sensação de estranhamento que tudo aquilo me trazia.

Às sete horas, quando o dia foi encerrado, voltamos para o hotel antes de seguir para o jantar com Fermi. Atena insistiu que eu e meu pai tomássemos banho antes enquanto ela conjurava as proteções que achava necessário. Depois de sairmos, Atena entrou. Fiquei sozinho com meu pai naquele quarto. Nenhum de nós tinha levado roupas para se trocar dentro do banheiro, então era inevitável que nos vestíssemos ao mesmo tempo.

Ainda assim, algo naquela situação me deixava nervoso. Desde o momento em que meu pai saiu enrolado na toalha, eu mesmo também sem nenhuma roupa, um desconforto pairou sobre mim, uma sensação estranha que eu sequer conseguia compreender direito, ainda que agora, vendo tudo em retrospectiva, eu sinta que sabia, sim, o que eu sentia.

Eu não queria tirar aquela toalha. Eu não queria que meu pai visse meu corpo nu. No fundo, eu mesmo não queria ver o dele. É dolorosamente óbvio para mim o medo que eu tinha de descobrir a pele que existia por baixo daquelas roupas, ver os pelos, as marcas de idade, as falhas daquele corpo. Enquanto a toalha era tirada, revelando toda a forma de meu pai, seu corpo de cinquenta anos marcado de cicatrizes, estrias e varizes, o que se mostrava diante de mim era alguém que eu não conhecia.

Sem óculos, sem terno, sem a sobriedade e distâncias forjados por toda a indumentária formal, sem a gravidade profunda do seu conhecimento, restava ali meu pai como um homem de carne e osso. Um homem que tinha rugas, manchas na pele e cabelos grisalhos, que envelhecera com os anos e continuaria a envelhecer a cada dia até sua morte.

Pela primeira vez em muito tempo, eu quis falar, mas nenhuma palavra veio a mim.

 

Foi por volta das oito da noite que chegamos ao restaurante em que Fermi tinha marcado o jantar, um restaurante conceito a beira-mar, perto do Museu de Arte Sacra, em plena zona rica da cidade. No estacionamento, uma Mercedez era comentada por dois dos seguranças. Fermi tinha reservado uma mesa no exterior do restaurante, lugar aberto, perto do mar. Enquanto íamos até lá, pedi a Atena que mantivesse defesas de pé para qualquer caso de emergência, enquanto eu mesmo media o local. O restaurante era grande, as mesas muitas, mas afastadas umas das outras, apenas os garçons caminhavam entre elas. Em vários pontos, havia mesas grandes para exibição dos pratos. Entre os clientes, a maioria parecia empresários ou coisas do tipo. Era, de fato, o tipo de lugar que esperava daquele homem. Fermi estava acompanhado do mesmo rapaz com quem estava durante a manhã. Assim que chegamos à mesa, ele nos cumprimentou um a um, começando por meu pai, indo para mim e, por fim e visivelmente hesitando, para Atena. Após algumas introduções breves e conversas sem importância, todos pedimos. Durante todo esse tempo, percebia o olhar do acompanhante de Fermi concentrado em mim.

A cerca altura, senti meu celular vibrar. Ignorei da primeira vez, mas uma segunda mensagem chegou logo depois. Pedi licença e me afastei para conferir do que se tratava. Eu não conhecia o número do remetente, mas não foi difícil saber quem tinha enviado uma vez que abri as mensagens. A primeira mensagem era simples, dizia simplesmente “um pequeno agradecimento por ter me ajudado”. A segunda era só uma foto de Cordelia, provavelmente tirada por ela mesma, nua no banheiro, os cabelos soltos cobrindo seus seios e um sorriso lascivo, terrivelmente confiante exposto junto a um olhar insaciável. Considerei responder, mas desisti rápido. Fechei a mensagem e voltei à mesa.

Quando me sentei de volta, Fermi pediu uma garrafa de vinho, a mais cara disponível no catalogo do restaurante. Ela não demorou a chegar e assim que a bebida estava servida, Fermi propôs um brinde à “ocasião”. Hesitei em beber, esperando a confirmação de Atena de que era seguro, o que não demorou a chegar. Considerando o sorriso do assistente de Fermi, ele notou minha preocupação.

– Agradeço pelo convite de jantar – meu pai disse. – Sem dúvidas, esse restaurante é um dos melhores da cidade.

– O melhor, na verdade! – Fermi respondeu. – Para um convidado como você, não poderia oferecer nada menos.

– Agradeço novamente a sua gentileza. Mas não posso deixar de me perguntar qual seria o motivo de estarmos aqui agora.

– Estabelecer laços dentro da nossa comunidade não é motivo o suficiente?

– Isso depende muito do tipo de laço de que estamos falando.

Fermi conferiu as horas em seu relógio de pulso dourado e caro por mais tempo do que o necessário e então sorriu.

– Laços sempre foram algo muito forte na sociedade – ele disse. – Desde que a humanidade surgiu, a capacidade de cooperar é uma chave de nosso sucesso como espécie, não concorda?

Meu pai não respondeu. Após um ou dois instantes, Fermi esticou sua mão para frente num gesto amplo.

– E entre nós, praticantes de Artes Místicas, laços sempre foram uma forma muito de resistir ao mundo que nos cerca. Nessa situação mesma em que estamos, completamente vulneráveis sem a nossa Arte, contamos com a ajuda de nossos pupilos e assistentes. Como você tem seu filho, eu tenho Nino. Nós estamos juntos desde que ele tinha treze anos. Ele era um garoto muito talentoso, mas que precisava da mão certa para guiá-lo. E eu, por minha vez, precisava de alguém de confiança ao meu lado. Nosso encontro foi uma benção mútua.

Fermi ofereceu a mão direita a seu acompanhante, Nino, que lhe beijou o grande anel. Ao meu lado, Atena virou o resto de seu vinho num gole rápido.

– O que quero dizer com tudo isso é muito simples. Nenhum homem é uma ilha, como disse Donne. Mesmo os mais poderosos não podem ser poderosos para sempre. É necessário ter aliados a seu lado para momentos de necessidade.

– Qual a sua oferta?

– Não minha, mas também de todos os meus iguais. Queremos que você se junte a nós na nossa Irmandade, que você se torne um conosco para que assim nós possamos nos ajudar.

Atena abriu um sorriso cínico, incontido. Mencionei me levantar, mas o olhar do meu pai me disse para ficar onde estava. Fermi encarava meu pai como se esperasse uma resposta dele.

– O que me diz quanto a isso?

– Você entende que meu filho teve problemas com a sua Irmandade antes. Não apenas ele, como também Atena.

– Infelizmente, mesmo diamantes às vezes estão manchados por impurezas que precisam ser eliminadas. Herrero não tem mais qualquer ligação com a Irmandade e isso teria acontecido muito antes se tivéssemos descoberto o a barbaridade que ele tinha cometido. Ele era um traidor e nada mais. Ademais, eu devo lembra-lo que o próprio Schumann e sua filha eram parte do nosso grupo, como tenho certeza de que seu filho e sua familiar entendem.

– Eu acredito que você saiba da minha necessidade de não me envolver diretamente em assuntos sobrenaturais.

– Sim, um fato inadmissível, considerando seu talento. Um desperdício que pode ser remediado. A Irmandade tem os meios necessários para resolver esse problema e tenho certeza de que todos concordariam em utilizá-los por um dos nossos.

– Entendo.

Meu pai tomou seu guardanapo e se limpou, deixando-o então de lado.

– Eu sinto muito, mas não posso aceitar essa oferta – ele disse.

– Por quê?

– É um caso simples de conflito de interesses. Me unir à sua Irmandade contraria os meus objetivos.

– Não vejo como. A Irmandade poderia sem dúvidas ajudá-lo em seus objetivos quaisquer que sejam eles. Temos recursos financeiros, institucionais e técnicos dos quais alguém como o senhor sem dúvidas poderia se beneficiar. Não vejo de que modo isso contrariaria seus interesses.

– É um conflito fundamental. Nesse momento, meu principal interesse é exercer minha função como mestre de Daniel e o objetivo é manter a neutralidade da cidade e impedir que qualquer tipo de anomalia seja utilizada para prejudicar pessoas. Sendo assim, eu não poderia aceitar me juntar à sua Irmandade, por melhores que sejam as condições oferecidas por ela.

– Você parece ter uma opinião equivocada quanto ao papel da Irmandade. De modo algum nós prejudicamos quem quer que seja. Somos apenas um grupo que se uniu com o simples objetivo de se ajudar mutuamente.

– E eu me sinto obrigado a questionar o tipo de ajuda que juízes e políticos oferecem para um grupo majoritariamente formado por membros de famílias ricas cujos laços com o setor privado são, digamos, profundos.

Por um momento, a tranquilidade do rosto de Fermi foi perturbada por uma irritação súbita, fulminante, que deformou seus olhos e inflou suas narinas. Rapidamente, porém, sua compostura se refez e qualquer sentimento que pudesse estar ali foi suprimido.

– Sinto muito ouvir essa resposta, mas espero que o senhor reconsidere. Todos temos apenas a ganhar se nos dermos as mãos.

– Não tenho a menor dúvida quanto a isso. É o que acontecerá com outras pessoas que me preocupa.

Meu pai se levantou, abriu a carteira e colocou algumas notas sobre a mesa, o suficiente, ou mais, para pagar as contas dele, de Atena e minha.

– Obrigado pelo convite. Vamos nos retirar embora. Amanhã será um longo dia.

– Por favor, pegue o seu dinheiro de volta. Eu convidei todos vocês para jantar. Permita que eu pague. Como cortesia.

– Agradeço a intenção, mas não é necessário. Obrigado novamente pelo convite. Boa noite.

Atena e eu nos levantamos a seguir, ela tomando um momento para levantar as pontas de seu vestido numa mesura claramente fingida. Saímos dali logo depois e então direto para um taxi.

– Admito que essa foi uma ótima noite – Atena disse com um sorriso largo e cínico. – Tinha me esquecido como a dor alheia é um excelente tempero para um jantar a beira-mar.

– Você é terrível – eu disse.

Schadenfreude ist die schönste Freude, meu querido mestre.

– Fico feliz que você esteja satisfeita com essa noite – meu pai disse. – Não espero que as próximas sejam tão tranquilas.

– Acha que aquele cara vai retaliar por você ter recusado a proposta dele?

– Alguém tão interessado em algo jamais desistiria simplesmente após ser rejeitado. Além disso, a intenção deles provavelmente jamais foi que eu me juntasse à “Irmandade”.

– Então o que eles queriam?

Meu pai olhou para mim.

– Neutralizar um fator de risco. Obviamente, num cenário ideal eles poderiam cooptar você e assim garantir um recurso poderoso. Mas, uma vez que o cuco tenha se recusado a cantar, me pergunto qual caminho eles seguirão.

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