Linhagens – Capítulo V

Voltei para o hotel por volta das seis da manhã. Quando entrei no quarto, meu pai e Atena já tomavam o café da manhã. Nenhum dos dois falou nada, mas eu sentia os olhares de Atena sobre mim. Fui direto para o chuveiro tentar lavar aquela noite da minha pele. Saí do banho e os dois já estavam preparados para ir ao congresso. Peguei qualquer coisa que restou do café e fui comendo no caminho. Durante a viagem, pude capturar o olhar de Atena várias vezes, sempre me encarando como se quisesse dizer algo, mas não encontrasse o momento de fazê-lo.

Na área comum, não havia sinal de Cordelia, mas Fermi estava lá, outra vez acompanhado de seu assistente de sempre. Ele provavelmente nos notou, mas evitou aproximação indo logo falar com outra pessoa. Meu pai foi abordado por um outro participante, mais jovem que ele, acompanhado de um garoto de não mais que quinze anos e a conversa com os dois acabou tomando todo o tempo antes das comunicações da manhã. Logo, após nos despedirmos deles, fomos para o anfiteatro.

Depois de cerca de duas horas, saí para pegar água. Enquanto seguia para a área comum, vi alguém passando rápido por um corredor à frente. Apenas uma silhueta, a princípio. Por instinto, fui atrás dela, tomando o corredor e vendo pela visão periférica o vulto seguir por escadas. Continuei atrás da figura, no caminho conjurando algumas magias como salvaguarda. A escada terminava numa porta pela qual entrava uma brisa intensa. Subi de um impulso, abrindo a porta com um empurrão e alcançando o terraço. Olhei ao redor rápido, porém não havia qualquer sinal do vulto nas redondezas.

Ouvi, porém, um som alto de eletricidade e vi a poucos metros de mim a caixa de luz de um poste estourar numa chuva de faíscas. Desci correndo as escadas, vendo as luzes do interior do teatro agora apagadas e um vulto percorrendo as sombras em direção ao anfiteatro, único ponto restante de luz ali. Persegui o vulto até a porta , onde ele parou, de costas para mim, sua silhueta coberta por manto e capuz marcada pelas luzes que vazavam pelos vidros da porta. Por um momento, o vulto não se moveu e então seu rosto se virou em minha direção e tive a impressão de ver um brilho fugaz em seu olhar. Antes que eu tomasse um passo sequer à frente, uma cortina de fumaça subiu ao redor dele, interrompendo minha visão por um momento. Avancei mesmo sem enxergar, investindo contra quem quer que fosse aquele, mas tudo que senti foi a porta do anfiteatro que se abriu com a força do impacto. Assim que entrei, muitos olhares se voltaram para mim, alguns ameaçadores, outros assustados. Vi meu pai se levantar no meio da multidão me acenar. Só então, a atenção sobre mim começou a se dissipar. Voltei para o lugar onde eu estava sentado antes.

– O que aconteceu? – Atena me perguntou.

– Eu vi uma pessoa suspeita quando saí e acabei indo até o terraço atrás dela. Quando cheguei lá em cima, um poste explodiu. Desci correndo para cá e consegui alcançar o tal antes dele entrar aqui. Mas quando eu tentei pegar ele, veio uma cortina de fumaça e eu acabei acertando a porta. E por aqui?

– Você deve conseguir imaginar a maior parte – meu pai disse. – Assim que as luzes se apagaram, todos ficaram em guarda. A mesa conseguiu organizar a situação o suficiente para que alguns conjurassem luzes, mas não havia como parar completamente o caos.

– Pelo que eu notei, ninguém saiu daqui de dentro – Atena falou. – Eu estava prestando atenção.

– Então quem quer que tenha feito isso estava lá fora. Um assassino?

– É possível. Mas não acho que seja o caso.

– Então o quê?

– Provavelmente querem que fiquemos presos aqui dentro. Querem ganhar tempo. Por isso esperaram você sair. Agora, todos têm alguém de quem desconfiar e a situação toda se torna um mar de especulações. A mesa vai impedir qualquer um de sair até confirmar a situação, mas já devem estar trabalhando em verificar os arredores por possíveis ameaças.

– Claro que isso não significa que a ameaça está mirando em algo próximo daqui – Atena disse. – O alvo real pode muito bem ser o hotel onde qualquer um aqui está e tudo que eles querem é causar um pouco de caos e disfarçar a intenção.

– Você consegue confirmar se o nosso quarto está seguro? – falei para Atena.

– Eu coloquei algumas proteções. O suficiente para ninguém entrar lá. Estamos seguros por esse flanco.

Toda aquela situação permaneceu por duas horas até que os organizadores do evento conseguissem contornar os problemas e restaurar a eletricidade e a ordem. Nesse ponto, foi declarada uma pausa de uma hora para que todos se alimentassem e tomassem as precauções que considerassem adequadas. Ao fim do intervalo, o evento seria retomado dentro do previsto.

Saí junto com meu pai e Atena para a área comum. Muitos deixaram o teatro, alguns nem sequer voltariam naquele dia. Com o número reduzido de pessoas, foi fácil ver Cordelia e sua mestra numa das paredes, do mesmo modo como foi fácil para as duas nos achar.

– Alguns rostos não mudam com o tempo – Elisabete disse ao meu pai quando se aproximou. – Felizmente, não foi o seu caso.

– Elisabete. Faz muito tempo.

– Muito mais do que eu gostaria, com certeza. Você mudou.

– Você também. Tem até uma aprendiz. Não é algo que eu esperava de você.

– Necessidades da arte. Além disso, Cordelia é uma joia rara. O talento dela não é algo que eu poderia permitir ser desperdiçado. Ela é quase tão boa quanto você era naquele tempo.

– Olha só, quem diria – Cordelia disse. – Pelo que ela fala de você, acho que esse foi o maior elogio que eu já recebi.

Elisabete sorriu para Cordelia, que rebateu com o próprio.

– Mas eu não fui a única que decidiu adotar um aprendiz. Ouvi falar do que o seu filho tem feito. Ele está se tornando famoso rápido.

– Não é a única coisa que ele está se tornando rápido – Atena disse, olhos cravados em Cordelia.

– E essa seria…? – Elisabete perguntou.

– Minha familiar. Atena.

– Seu familiar é uma garota? Você faz ela te chamar de “mestre”?

– Não, ele não faz. Pode não parecer, mas ele é uma pessoa decente, se é que você entende o que isso significa.

– Sério? Que desperdício. Eu queria que você fosse a minha familiar. Você ia ficar linda com uma coleira.

– Obrigada. Tenho certeza de que você tem um grande conhecimento pessoal sobre o assunto.

Uma parte de mim queria se matar diante daquela discussão.

– Fico feliz que vocês duas estejam se entendendo, mas não vamos tomar mais do seu tempo – Elisabete falou. – Mas foi muito bom te rever, Marcos. Por que não marcamos um almoço antes do congresso terminar? Você deve ter ótimas histórias para contar.

– Seria um prazer. Embora eu ache que nossos aprendizes tenham sido mais rápidos do que nós nesse sentido.

– Jovens e sua pressa. Tome cuidado, Marcos. Ao que parece, esse evento vai ficar mais agitado daqui para frente.

– Você também.

As duas se encaminharam para a saída, mas antes de cruzar a porta para fora, Cordelia deu meia volta, tirou um embrulho de sua bolsa e me entregou.

– Um souvenir – ela falou. – Nos vemos logo.

Ela foi embora então, deixando o teatro junto Elisabete. Os olhares de meu pai e Atena, especialmente os de Atena, estavam no pacote que Cordelia me entregara. Não me dei ao trabalho de discutir e abri ali mesmo.

Dentro da embalagem, estava a calcinha que ela usava na noite anterior, seu interior ainda marcado de branco.

– Que mulher vulgar – Atena disse.

– Ela é ousada, isso é um fato – meu pai falou.

Guardei a calcinha de volta dentro do pacote e o enfiei na minha mochila. Uma parte de mim já se arrependia de toda aquela história.

 

Passamos o resto do intervalo verificando como estava Raimundo e confirmando o estado geral do teatro e dos membros da conferência. Não consegui encontrar Fermi lá, mas descobri por outras vias que ele e seu assistente tinham saído no início da pausa. Quando o evento foi retomado, não vi nenhum dos dois no anfiteatro. Assim como eles, um número considerável de participantes tinha deixado de vir para aquele resto de dia. Àquela altura, menos da metade dos convidados iniciais continuava ali. Cordelia e Elisabete, como eu esperava, tinham voltado do intervalo e estavam sentadas nos mesmos locais de antes. A mesa retomou a agenda normal com pouco mais de três horas de atraso, reduziu o tempo de cada comunicação em alguns minutos e conseguiu, por fim, encerrar tudo apenas duas horas depois do horário previsto. Com isso, por volta das nove da noite, eu deixava o Mirabilia junto a meu pai e Atena.

Raimundo esperava na saída, nos cumprimentamos e entramos no carro. Àquela altura, o trânsito do fim de tarde tinha diminuído consideravelmente, logo o retorno para casa deveria ser razoavelmente rápido. Decidimos que iríamos jantar no hotel para reduzir os riscos possíveis, então o caminho seria direto.

A viagem de volta prosseguia rápida e tranquila, estávamos na avenida que dava acesso à rua do hotel quando o tráfego engarrafou. Uma grande fila de carros estava à nossa frente, impedindo que se pudesse ver o que estava acontecendo ali. Raimundo ligou o rádio numa estação de notícias e não demorou muito para ouvirmos de um acidente que tinha se dado naquela avenida cerca de trinta minutos antes. Um caminhão de mudança tinha tombado, interrompendo metade da via. Assim que a notícia saiu, pude sentir a tensão dentro do carro aumentar. Não tinha dúvidas de que uma mesma ideia passava pela cabeça de todos ali. Pelo retrovisor, vi que a fila de carro já fechara o caminho por trás de nós, prendendo nosso carro no meio do trânsito pesado. Toda aquela situação acendia um sinal vermelho em minha mente, uma sensação clara de perigo iminente. A julgar pelos olhares, era algo que Atena e meu pai também compartilhavam. Antes que eu pudesse sugerir qualquer coisa, porém, vi algo se mover no retrovisor do carro.

Tive tempo apenas para conjurar uma magia de proteção ao redor de mim mesmo e me jogar por cima do corpo do meu pai enquanto uma moto cortava pelo acostamento, seu piloto chovendo tiros de uma submetralhadora no nosso carro. Senti as balas baterem contra mim, rasgando minha roupa e espalhando a dor, sem, porém, conseguirem atravessar a proteção. Olhando para o acostamento, vi o atirador totalmente vestido em roupas brancas de motociclismo, um capacete de lobo em sua cabeça e uma MP5 em sua mão. Ele moveu a mão em direção ao cinto, prestes a sacar outro pente. Abri a porta do carro com um chute e pulei para fora, saltando por sobre o carro ao lado e cortando a distância até o motoqueiro. Percebendo minha aproximação, ele travou o pente na arma e saltou na moto, ligando o motor e acelerando rápido. Antes que ele ganhasse distância, jorrei energia para a minha mão direita, deixando que eclodisse ali a massa de lâminas, a Diantha, disparando-a com toda a força que consegui em direção ao motoqueiro. Talvez notando o ataque iminente, ele virou o corpo para trás, descarregando os tiros contra meu projétil. As balas voaram pela via, acertando carros e arrancando gritos dos pedestres envolvidos na confusão. Elas, porém, não pararam meu ataque. Vi o atirador saltar da moto pouco antes dela ser partida pela Diantha. Saltei correndo atrás dele, me abaixando para evitar os tiros que vinham contra mim. Num momento de distração, perdi o motoqueiro de vista, mas meu instinto me guiou o olhar até o lado, onde o vi surgir de baixo de um carro, faca em mão, partindo em minha direção. Me desviei para o lado e o golpe dele abriu um corte na lataria de um carro. Segurando a faca em empunhadura inversa, ele avançou contra mim encaixando facadas e socos enquanto eu recuava bloqueando e desviando do que podia. Na primeira abertura que surgiu, tomei um passo rápido adiante, prosseguindo o movimento com uma joelhada que atingiu o atirador na altura do estômago, jogando-o para trás. Senti, porém, a batida acertar em algo mais duro que carne. Armadura tática, provavelmente. O motoqueiro de branco levantou rápido, mas o barulho de sirenes de polícia ao longe o fez recuar, guardando a faca em seu cinto. Tentei ir atrás dele, mas o sujeito deslizou para baixo de um carro e dali desapareceu completamente.

Corri de volta para o carro onde meu pai e Atena estavam, a porta dele ainda aberta quando cheguei. Os tiros tinham acertado o carro do fundo até a frente. Atena estava no banco da frente, mãos colocadas com força contra um ponto da barriga de Raimundo de onde jorrava sangue. Perdi o ar por um instante, olhei para o banco de trás. Meu pai estava sentado ali, mãos juntas, olhar voltado para frente. Não para Raimundo, mas para um ponto que muito provavelmente apenas ele via. Ele não parecia ter sido baleado e quem o visse de longe, provavelmente não perceberia qualquer sinal de perturbação nele. Mas eu via em seu olhar uma raiva fria e inexorável que há muito tempo não tinha estado ali. Sentei ao lado dele, mas seu olhar não se moveu.

– Ele escapou – falei.

– Você fez o suficiente. Eu deveria ter considerado a possibilidade de um ataque. Foi minha culpa.

Por mais que eu quisesse, não consegui encontrar palavras para falar.

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