Arquivo da categoria: Contos

Ainda que o mundo pereça

Relatório

Quando eu ainda era criança, certa vez alguém me contou a história de uma terra habitada por pássaros completamente brancos. Um dia, porém, uma terrível escuridão teria surgido nessa terra, lentamente a enegrecendo os pássaros tocados por ela. No começo, as aves tentaram conter as trevas e isolar aqueles manchados por ela. Porém, foram esforços inúteis diante do avanço irrefreável das trevas. Eis que então surgiu dentre todos os outros um pássaro comum. Tomado de um sentimento inexplicável, ele mergulhou na escuridão, buscando lá dentro encontrar um meio de pará-la. Após um longo tempo imerso nas trevas, o pássaro enfim encontrou, no coração daquele mal, um grande abismo do qual tudo aquilo surgir. Armando-se de toda a sua força de vontade, o pássaro se jogou então para dentro do abismo, abrindo seu próprio peito para que ali se depositasse toda a escuridão que vazava para o mundo. Foi um longo e doloroso processo, mas bem-sucedido ao fim. O pássaro, porém, pagou o preço de seu ato: suas penas haviam se tornado negras, nem um traço sequer de sua cor original permanecendo. Vitorioso, o pássaro negro voltou para a sua terra natal, agora liberta da temível treva. Lá, não recebeu louros ou canções, mas apenas olhares amedrontados e rejeição. Suas penas guardavam a memória das trevas, lembravam a todos os pássaros daquele mal que se abatera sobre eles. Dizendo que a ave de penas pretas poderia contaminá-lo os outros pássaros decidiram expulsá-la daquela terra para todo o sempre. Continuar lendo Ainda que o mundo pereça

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Flores de Vidro

Foi num dia claro de verão que, enquanto caminhava com Lavínia pelo centro, acabei envolvendo a nós dois em mais problemas. Não era para ser assim, porém. Pelos meus planos, aquele seria só um encontro romântico padrão com cinema, almoço e alguma conversa.

— Você não é muito criativo com essas coisas, sabia? – Lavínia disse quando saímos do restaurante. – Não que eu teja reclamando. Cê que tá pagando.

— Preferia brigar com monstros? Continuar lendo Flores de Vidro

A starting point

There always those moments in life where you think to yourself “maybe if I’d been a little faster or if I’d tried a little harder things could’ve been different”. That was one of those moments. That particular iteration of “if I…” was “if I had managed just five steps more things would’ve been so much simpler”. Unfortunately, I didn’t manage those dammed five steps. But I guess I should explain things a little.

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A Caneta ou da infinita malha de acontecimentos e como toda a história humana se baseia numa série inacreditavelmente longa de eventos conectados através de fatores inumeráveis demais para que uma mente humana possa compreender

Lá estava ele, de pé, ao lado das catracas do metrô, ingresso para o cinema no bolso, um caderno na mão, uma caneta na espiral do caderno, umas ideias avulsas na cabeça, todas muito verdes para que a caneta pudesse colocá-las em preto no papel branco. Para todos os efeitos, nada notável acontecia ali que valesse o esforço de se escrever sobre.

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O último trem do dia

Numa manhã, um corpo com a cabeça esmagada foi encontrado por funcionários do metrô jogado nos trilhos de uma estação. Eles fizeram o possível para abafar o caso, mas talvez você tenha ouvido essa história e na versão que te contaram a garota tenha se suicidado se atirando ali. Mas você não comprou essa história, não é?  Você pode escolher não acreditar em mim, mas eu vou contar mesmo assim, do mesmo modo que me contaram, e do mesmo jeito que contaram para quem me contou, sem tirar nem pôr uma vírgula, a versão verdadeira. Fique o alerta para, se um dia o mesmo te ocorrer, você não possa dizer que foi por falta de aviso.

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O que você quer ser?

Depois de uma ligação do meu pai, eu e Lavínia fomos para o antiquário que lhe servia de base. Como sempre, meu pai estava atrás do balcão lendo. Por mais estranho que possa soar, daquela vez ele estava lendo As Aventuras de Pinóquio. Só quando encostamos no balcão foi que ele largou o livro e, com a seriedade típica dele, ajeitou os óculos para dizer:

— Espero não ter interrompido nada.

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(mundo)

Naquela tarde, meu pai me levou até o topo da colina. Jamais estivera lá, não me deixavam. Enquanto subia tentando com todas as minhas forças ficar perto do meu pai, via a minha cidade, cercada pela vastidão, engolida pelo pôr-do-sol. Aquele sempre fora todo meu mundo.

No topo da colina, meu pai sentou-se olhando para a cidade, disse-me para sentar-me a sua direita. Obedeci. Só houve silêncio entre nós, por muito, muito tempo só houve silêncio entre nós.

“Você é um homem”, ele me disse. “Eu não posso te perdoar pelo que você fez. Você tem que agir direito. Agir como um homem”.

Eu não entendia aquelas palavras, nem aquele mundo dentro do qual meu mundo era só um pedaço, uma fração de uma parte de algo.

Era tudo grande demais para mim.

Imagem Nº 3

Duzentas e trinta e quatro palavras riscadas em papel. Realidade materializada em sons, sons transcritos em letras. A precisão divina dos termos tracejada com  a confiança falha de um adolescente, cada palavra engolida por infinitos reluzentes e então desaparecendo no nada como se jamais houvessem estado lá. Talvez realmente jamais houvessem estado. Talvez fosse apenas uma ilusão.

Os riscos no papel não diziam nada. Havia significado(?) neles, mas não poderia deixar de haver. Apenas não havia alma. Olhando para cada uma daquelas palavras, não se via mais que racionalizações insensíveis de sentimentos insondáveis. Não era vazio, não, pois no vazio havia profundeza. Aquelas palavras não eram a cristalização da alma de quem as escrevia, aquelas palavras não eram sentimento escorrendo do coração ferido, vazando em profusão, cheias de fúria e de amor e de loucura, aquelas palavras não eram o mundo tornado em som e verso, aquelas palavras não eram lixo, não eram nada. Duzentos e trinta e quatro pedaços de nada impensado e tolo. Fruto mecanizado de uma estúpida ânsia sem técnica ou habilidade, algo infinitamente, insuportavelmente arrogante. Apenas olhar para aquilo enojava, fazia pesar nos ombros o olhar censurador dos Imortais e dos  Sábios Antigos e Novos, olhares de desdém daquele que ousava tentar fazer em tão tenros anos aquilo que a eles custara eras.

Os riscos no papel apenas diziam que jamais deveriam ter sido feitos, que nada daquilo merecia existir.

Imagem Nº 2

Branco. Diante dos olhos somente o branco estranho de um teto. Preto. O corpo pesava de dor, de cansaço, de nervosismo. Imagens da noite anterior gravadas em sua mente surgiam repetindo-se e repetindo-se não o permitindo esquecer o que havia acontecido. Raiva, paixão, fúria, medo, doce medo, mais vivo do que todas as outras sensações. Ainda sentia no peito aquele aperto. Mas havia algo mais. Um calor úmido, ofegante, um distante aconchego. A mão subiu para tocar o céu límpido que se abria em todas as cores.

Mas era tão brilhante e tão quente que se queimou e despencou.

Ele abriu os olhos. Havia apenas o teto branco.

Imagem Nº 1

Ele acordou devagar, dolorido, cansado. Olhou para o relógio, viu que ainda não era tarde demais. Ao redor, como em todos os dias, o quarto silencioso, o chão frio, os olhares imóveis das fotos, o ruído inerte do vento.

Pela janela entreaberta ele via o horizonte inalcançável, confusão do cinza duro dos prédios, do cinza melancólico do céu nublado e sujo. Em silêncio, ele permaneceu de pé, parado, apenas observando. Talvez houvesse algo além daquilo, um castelo de marfim e ouro escondido por trás do concreto, livre das amarras do mundo, lar de sátiros e ninfas, de lagos, vinhedos e um céu azul. Ele estendeu sua mão, tentou agarrar aquele mundo.

Somente encontrou o vidro da janela.