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Linhagens – Epílogo

No dia seguinte, pouco depois do almoço, fomos para o aeroporto. O simpósio acabou sendo encerrado antes do previsto devido a todos os problemas ocorridos, especialmente após o assassinato de um dos participantes durante a noite. Fermi. Ao que parece, ele já era alvo de um outro mago que se aproveitou da vulnerabilidade dele após a perda de seu aprendiz e o derrubou num ataque surpresa. Esse Mago, pelo que parece, não estava envolvido no simpósio e tinha ótimas informações de alguém envolvido com toda a história. Com tudo isso e o duelo da noite anterior, a organização achou por bem acabar com aquele simpósio um pouco antes e assim evitar que a situação saísse ainda mais de controle.

No jornal, a notícia do clarão de luz visto na ilha na noite anterior tinha sido traduzida como uma explosão causada pelo acúmulo ilegal de lixo na área. Uma desculpa simples para abafar um caso que seria esquecido em breve pela mídia geral, mas continuaria a gerar boatos e problemas no futuro.

No fim, problemas foram a única coisa que veio de toda essa situação. Continuar lendo Linhagens – Epílogo

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Linhagens – Capítulo VII

Depois do desafio, restavam poucas horas antes do duelo. Acabamos decidindo ir para o hotel para tomar os preparativos finais. Antes de subir para o quarto, fomos até o restaurante do hotel e pedimos o jantar. Enquanto comíamos, eu podia sentir o fio quase imperceptível de tensão que pairava ao redor de todos. Qualquer que fosse o resultado daquele duelo, problemas futuros seriam inevitáveis. Era algo que estava mais do que claro àquela altura. Mas, ainda assim, minhas mãos estavam firmes.

– Eu vou vencer – eu disse. – Acreditem em mim.

Meu pai e Atena me olharam por um momento, cada um a seu jeito.

– Que mestre arrogante eu tenho. Mas suponho que isso não seja completamente mau.

– Não?

– Tem sua medida de charme. É carismático.

– Isso é um elogio sincero demais para vir de você.

– É o resultado do meu bom humor incomum. É uma situação bem agradável, essa. Duvido que eu vá poder dizer o mesmo no futuro, porém, nesse momento, eu teria que mentir para dizer que não estou feliz.

Atena sorriu empurrando parte de seu cabelo para trás.

– Você vai vencer, eu sei disso. Você pode ser turrão e mestre de uma técnica cheia de falhas, mas não tenho dúvidas de que quando se trata de quebrar coisas, não há quem possa te superar.

– Isso soa mais como um elogio seu.

– Soa? Continuar lendo Linhagens – Capítulo VII

Linhagens – Capítulo VI

Depois do ataque, Raimundo foi levado para o hospital para cirurgia enquanto meu pai, Atena e eu respondíamos evasivamente às perguntas da polícia. Só fomos dispensados por volta da meia noite e dali acabamos escoltados pela polícia até o hotel. Uma vez no quarto, tentei questionar se deveríamos mesmo continuar naquele congresso, mas meu pai insistiu que era tarde demais para recuar. No fim, Atena e eu revezamos a guarda para que ele pudesse descansar, mas nenhum de nós conseguiu dormir naquela noite.

No meio da madrugada, ouvi meu pai sair do quarto e, depois de alguma consideração, fui atrás dele. O encontrei no térreo do hotel, sentado com um café numa das mesas do restaurante. Me sentei na mesma mesa e meu pai me ofereceu em silêncio a bebida. Continuar lendo Linhagens – Capítulo VI

Linhagens – Capítulo V

Voltei para o hotel por volta das seis da manhã. Quando entrei no quarto, meu pai e Atena já tomavam o café da manhã. Nenhum dos dois falou nada, mas eu sentia os olhares de Atena sobre mim. Fui direto para o chuveiro tentar lavar aquela noite da minha pele. Saí do banho e os dois já estavam preparados para ir ao congresso. Peguei qualquer coisa que restou do café e fui comendo no caminho. Durante a viagem, pude capturar o olhar de Atena várias vezes, sempre me encarando como se quisesse dizer algo, mas não encontrasse o momento de fazê-lo.

Na área comum, não havia sinal de Cordelia, mas Fermi estava lá, outra vez acompanhado de seu assistente de sempre. Ele provavelmente nos notou, mas evitou aproximação indo logo falar com outra pessoa. Meu pai foi abordado por um outro participante, mais jovem que ele, acompanhado de um garoto de não mais que quinze anos e a conversa com os dois acabou tomando todo o tempo antes das comunicações da manhã. Logo, após nos despedirmos deles, fomos para o anfiteatro. Continuar lendo Linhagens – Capítulo V

Linhagens – Capítulo IV

Depois do jantar com Fermi, voltamos ao hotel para encerrar a noite. O dia seguinte, eu sabia, acabaria sendo longo. Antes que eu me deitasse, porém, recebi uma chamada no telefone do hotel. Atena atendeu a chamada e então passou para mim. Aparentemente, Cordelia estava no saguão e queria falar comigo. Quando questionei o que ela queria, o funcionário disse não saber. Embora não pudesse entender o motivo de fazê-lo, disse que iria descer. Antes que saísse do quarto, Atena me parou.

– Tome cuidado com aquela mulher – ela disse.

– Ela não parece uma ameaça.

– Para a sua vida? Provavelmente não. Mas eu conheço o tipo dela. Ela é perigosa.

– Isso não parece você falando.

– Por que eu estou preocupada dessa vez.

– Não precisa ficar.

– Ulisses era um homem sábio, mas até mesmo ele caiu no feitiço das sereias. Não esqueça disso.

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Linhagens – Capítulo III

Após o almoço, voltamos ao teatro para o resto das mesas daquele dia. Por algum motivo, o tempo pareceu passar mais rápido nessa segunda metade do evento. Em alguns momentos, olhei ao redor em busca de Fermi e Elisabete, mas só encontrei a segunda, e inevitavelmente Cordelia. Não conseguia evitar a sensação de estranhamento que tudo aquilo me trazia.

Às sete horas, quando o dia foi encerrado, voltamos para o hotel antes de seguir para o jantar com Fermi. Atena insistiu que eu e meu pai tomássemos banho antes enquanto ela conjurava as proteções que achava necessário. Depois de sairmos, Atena entrou. Fiquei sozinho com meu pai naquele quarto. Nenhum de nós tinha levado roupas para se trocar dentro do banheiro, então era inevitável que nos vestíssemos ao mesmo tempo.

Ainda assim, algo naquela situação me deixava nervoso. Desde o momento em que meu pai saiu enrolado na toalha, eu mesmo também sem nenhuma roupa, um desconforto pairou sobre mim, uma sensação estranha que eu sequer conseguia compreender direito, ainda que agora, vendo tudo em retrospectiva, eu sinta que sabia, sim, o que eu sentia. Continuar lendo Linhagens – Capítulo III

Linhagens – Capítulo II

Passei o resto da noite acordado enquanto Atena descansava. Ás sete da manhã, saímos do hotel. Assim que chegamos na entrada, um esperava. O motorista, um senhor já de idade, desceu do carro e tirou o chapéu para o meu pai.

– Bom dia, doutor. Vai ficar aqui muito tempo?

– Só alguns dias. Agradeço por me ajudar.

– Qualquer coisa para o senhor, doutor. E os dois?

– São meu filho, Daniel, e uma amiga dele, Atena.

O homem cumprimentou a Atena e a mim com um aperto de mão longo e dedicado, ainda segurando o chapéu contra o peito. Enquanto era cumprimentado, eu sentia o olhar do homem me medindo.

– Pode me chamar de Raimundo, rapaz. Você parece seu pai quando ele era moço. Forte do mesmo jeito.

– Vocês se conhecem há muito tempo?

– Desde que ele era da sua idade. O doutor e o pai dele deram um jeito no meu menino quando ele ficou ruim das pernas lá atrás. Mas eu nunca esqueci, não. O doutor é boa pessoa.

– Foi meu pai quem tratou da maior parte do problema, mas eu agradeço pela sua gentileza, Raimundo. Agora, poderia nos levar para até o endereço que eu passei?

Durante a viagem, estendida em muito pelo trânsito do centro da cidade, Raimundo e meu pai não pararam de conversar, embora a maior parte das palavras tenha sido dita por Raimundo. Era estranho ver quão animado ele se mantinha enquanto falava com meu pai, tecendo elogios, contando pequenos causos. Em dado momento, ele chegou a mostrar uma fotografia tirada muitos anos antes. Nela, estavam Raimundo, sua esposa, seus dois filhos, meu pai e alguém que provavelmente era meu avô.

– Ele tem razão sobre vocês dois se parecerem. Bem, ele era mais refinado, sem dúvidas, e os óculos dão um ar intelectual. Ele parece mais inteligente que você, isso é certeza. Continuar lendo Linhagens – Capítulo II

Linhagens – Capítulo I

Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Como nossos pais, Belchior.

Descemos do voo depois das duas da tarde de um dia de verão extremamente quente. Sempre tinha ouvido falar como as temperaturas no nordeste eram altas, mas comprovar aquilo na pele era muito diferente de simplesmente ouvir dizer. Enquanto meu pai e Atena faziam o checkout, fui garantir que as malas não tinham desaparecido. Tive que insistir com o carregador para que ele me entregasse as bagagens logo, já que o voo tinha atrasado os planos em algum tempo já. Foram quase cinco minutos de discussão, mas consegui as malas. Aparentemente, mesmo fora da minha cidade, ser agressivo continuava sendo uma necessidade. Os próximos três dias seriam longos.

Tive a certeza disso desde o começo, quando naquele dia estranho, meu pai me chamou ao antiquário. Assim que cheguei lá, ele me mostrou as três passagens já compradas num voo padrão para o nordeste. Não tive nem mesmo tempo de perguntar o que era aquilo e as cartas foram jogadas na mesa.

– Em duas semanas, vai acontecer um evento, uma espécie de congresso, com magos importantes. É um evento grande, o maior do tipo na América Latina, provavelmente no hemisfério sul inteiro. Serão três dias de mesas e discussões sobre o estado do submundo nacional e os desenvolvimentos recentes em teoria mágica. Continuar lendo Linhagens – Capítulo I

Contrafação – Epílogo

A luz descia do topo, dourada, iluminando as incontáveis prateleiras de madeira, carregadas com infinitos livros, crescendo em círculos concêntricos até muito além de onde os olhos podiam ver. Sentada numa cadeira no centro de tudo, estava uma garota. Ela não era especial e nem muito significante. Era só uma garota que gostava de ler vivendo num mundo de livros.

Ela se virou para mim e falou.

 

Abri os olhos.

Estava deitada numa cama de um quarto pequeno. Pela janela, dava para ver, lá longe, a cidade. Meu corpo doía um pouco ainda, minha cabeça não estava exatamente no lugar. Na minha mão direita havia agora um desenho avermelhado, como uma tatuagem. Deixei minha mão despencar e fiquei olhando para o teto.

“Ainda tem muitos livros para ler. Vou deixar isso por sua conta”.

Suspirei.

— Então até uma cópia pode sonhar…

Contrafação – Capítulo X

Empurrei a porta do último andar e saí do fosso do elevador. Ele dava direto na entrada da cobertura. Toquei a porta e senti, claramente, a barreira mágica erguida ali, poderosa demais para que eu pudesse simplesmente dispersá-la rápido. Não havia janelas ali, então a única entrada era a porta.

Forcei a maçaneta e entrei. Continuar lendo Contrafação – Capítulo X