Contrafação – Capítulo VIII

Um som estranho vinha de algum lugar, como um martelo batendo na madeira, mais e mais forte a cada segundo, até parar. Minha cabeça doía o suficiente para eu querer que ela simplesmente explodisse de uma vez por todas se isso fosse fazer a dor ir embora. Tentei mexer os braços para me levantar, mas não conseguia tirar eles do lugar. Forcei e comecei a sentir as correntes ali, nos meus pulsos. Quando tentei mexer as pernas, as senti nos tornozelos. Presa.

Eu estava no meio de um sótão que parecia servir como depósito, julgando pela quantidade de objetos variados que estava simplesmente jogada ali. Parando para pensar agora, era estúpido da minha parte estar surpresa naquela situação. A informação na hora não surgiu assim, tão rápido, mas era óbvio o suficiente o que estava acontecendo. Continuar lendo Contrafação – Capítulo VIII

Contrafação – Capítulo VII

Pelas 17h do dia seguinte, tudo estava pronto. Pouco antes disso, a resposta do meu amigo policial finalmente chegou, entregando a mim um endereço onde, segundo ele, o homem que levou Mime até Frankenstein morava. Às 19h, saímos da casa do meu pai direto par esse lugar.

Depois de uma hora de viagem muda, chegamos a uma casa abandonada pela história. Um dia, aquilo provavelmente tinha sido uma construção imponente e bem cuidada, adornada de estátuas, tapeçarias e janelas decoradas. Hoje, as estátuas sujas e quebradas nem mesmo choravam e dos vidros não sobrou nada. O portão estava aberto – o cadeado já devia ter se partido muito tempo antes. No quintal, pilhas e pilhas de lixo jogados, provavelmente, pelos vizinhos. Entre latas de cerveja e pedaços de madeira apodrecida, quebrada e suja, havia uma cruz de mármore. Ao vê-la, Mime suspendeu todo o seu movimento. Seu olhar, subitamente capturado pela imagem, ignorava tudo mais. A passos atrasados em anos, ela despencou até a cruz. Ajoelhada diante daquele pedaço de pedra, ela esfregou as mãos sobre o nome inscrito nos braços até fazê-lo surgir por completo, agora desgastado pela chuva e o mato. “Alexandra Schumann”. Continuar lendo Contrafação – Capítulo VII

Contrafação – Capítulo VI

Fomos de taxi até a loja do meu pai, o antiquário solene e discreto escondido num bairro qualquer. Destranquei a porta e entramos. A atenção de Mime logo foi sugada pelos objetos estranhos que ficavam eternamente largados nas prateleiras dali. Entre estátuas velhas e sujas e instrumentos misteriosos, ela tocou tudo que via. Quando se cansou, ela virou para mim.

— Você não devia avisar que chegou?

— Relaxa. Ele já sabe que a gente está aqui. Continuar lendo Contrafação – Capítulo VI

Contrafação – Capítulo V

Fomos seguindo por aquela rua e paramos no primeiro lugar aberto, um mercado, e pegamos qualquer coisa para comer. Os funcionários olhavam estranho para a gente, provavelmente por causa do suor e da minha roupa rasgada. Fingi que não vi. Pegamos umas bolachas e saímos. Paramos numa praça próxima dali, pequena e sem iluminação, com muitas árvores e cobertores largados, mas ainda vazia àquela hora.

— Pode começar a falar agora – eu disse. Continuar lendo Contrafação – Capítulo V

Contrafação – Capítulo IV

Esperei alguns minutos antes de começar a seguir Mime, apenas tempo o suficiente para que ela não desconfiasse de nada. O caminho dela seguia por algumas estações, mergulhando em direção à zona norte da cidade, até descer do vagão no terminal. De lá, ia para fora, descia escadas e escorregava pelas rampas, ganhava a rua, passava o Memorial e ia mais e mais a fundo, até, enfim, entrar num prédio. Um hotel, ou qualquer coisa equivalente, não muito grande e razoavelmente bem cuidado. “Bom”, para os padrões da região.

Fiquei alguns minutos observando a movimentação na entrada, mas só a recepcionista estava ali. Não parecia ter segurança – não era o tipo de hotel para onde quem se preocupa com isso vai. Lembrava, isso sim, os hotéis de filmes policiais. Naquela noite de lua clara, pairava qualquer coisa de noir sobre as cabeças dos prédios. Se alguém atiçasse bem o ouvido, talvez conseguisse imaginar um saxofone tocando ao fundo. Continuar lendo Contrafação – Capítulo IV

Contrafação – Capítulo III

Mime estava esperando fora do prédio, parada ao lado de um poste. Ao me ver descer, ela se aproximou, movendo a bolsa em direção à frente do corpo.

— Com isso, você fez a sua parte – ela disse. – Quanto fica?

— Ainda não acabou.

Ela olhou para mim, olhos apertados, cabeça virada de leve para o lado.

— Como assim? – ela perguntou. Continuar lendo Contrafação – Capítulo III

Contrafação – Capítulo II

Frankenstein era o tipo desconfiado, vivia sempre escondido, mudando sua localização de tempos em tempos e deixando seu endereço só com alguns poucos olheiros, responsáveis por levar os clientes até o estúdio dele. Encontrá-lo nunca era uma tarefa fácil, e não seria naquele dia.

Só lá pelas quatro encontramos um dos chamarizes do Frankentein e até chegar no estúdio atual, escondido no segundo andar de um prédio comercial, entre uma academia e uma farmácia, já era quase seis da tarde. Continuar lendo Contrafação – Capítulo II

Contrafação – Capítulo I

A história que vou contar não tem nada de importante. Não há uma lição a ser tirada dela, nem qualquer coisa de criativo ou notável. É uma mentira. Menos que isso – uma contrafação. Uma imitação de uma história de verdade, sem valor ou beleza.

Então por que se dar ao trabalho de contar?

Me pergunto a mesma coisa.

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Até algum dia

E agora, ao grande momento, quando tudo dá errado e o herói é forçado a agir.

Foi bem depois do último trem sair, quando os trilhos já estavam abandonados e eu começava a ficar com fome depois de tanto esperar alguma coisa acontecer, bem após os primeiros pensamentos de “esse foi um plano ruim” aparecerem na minha cabeça.

Talvez se eu tivesse um Emile-sinal… Continuar lendo Até algum dia

Isso é um adeus

Toda história, desde que ela não se proponha a ser um antirromance, deve em algum momento chegar a seu grande momento de desenlace, o clímax, onde as forças opostas de enfrentam, seja através de um embate ideológico, mental, físico ou todas as alternativas anteriores.

Para mim, naquele momento, o que isso significava era que eu não teria mais como evitar ter que lidar com o Corvo e o Pitbull. Não que isso fosse algo que eu pretendesse fazer.

É chegada a hora. Continuar lendo Isso é um adeus