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XXII – Capítulo 15

O barulho dos passos de Mami era engolido pelo estardalhaço de paredes partindo, fogo farfalhando no ar e o impacto brutal de alguma coisa contra pedra. A cena a cada metro que ela avançava se tornava pior — paredes estouradas como se uma bala de canhão as tivesse acertado, escadas de emergência derretidas pelo calor intenso de chamas, o chão chamuscado de cinzas e pedaços de cimento. Os estrondos da batalha se aproximavam e o coração de Mami disparava enquanto seus dedos se agarravam firmes à camiseta como se entre eles não estivesse pano, mas músculo pulsante.

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XXII – Capítulo 14

Em antigos filmes de faroeste, sempre havia o momento em que o herói e o vilão se encaravam no meio da cidade. O clima era mudo, estático, suspenso, a música tensa, ameaçando explodir a qualquer momento, mas apenas prolongando. A câmera focava nos olhos de cada um dos duelistas, mostrava sua atenção, sua tensão, o movimento dos músculos das rugas, as nuances de cada expressão. Eventualmente, quando havia expectadores, a câmera passava por eles, mostrava a apreensão que os preenchia, e então para o relógio, onde destacava o bater dos ponteiros e a aproximação lenta do momento inevitável.

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XXII – Capítulo 11

Primeiro, foram as praças, ainda em construção, mas já acessíveis, moldadas bem acima dos prédios e da fumaça, cânceres verdes no corpo cinza e salubre da cidade. Depois, as estações novas de metrô, ainda brancas e limpinhas, nem estreadas por pé nenhum. A seguir, o shopping Yngrid, o maior da cidade, segundo ele mesmo, e a prefeitura, o prédio mais antigo de toda Asano, feito mais de dois séculos antes e o monolítico prédio do EAE, com seu logo de fonte angulosa, janelas quadradas, linhas retas. Tinham outros lugares onde podiam ir, realmente, mas para um primeiro dia, até que era um bom tour. Sem dúvidas, qualquer um que avaliasse a escolha de rota, parabenizaria quem a fez.

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XXII – Capítulo 10

Se alguém tomasse a primeira direita na avenida central, vindo do prédio da prefeitura, e de lá a segunda esquerda e a terceira direita – uma curiosa progressão – encontraria uma estabelecimento pequeno entre uma loja de departamentos e um prédio de escritórios. Uma dessas pequenas lojas com fachadas de vidro, enquadradas por duas árvores, com bancos na frente e uma placa vintage em que se lia “Le Tarot”. Se esse alguém parasse em frente à loja, veria lá dentro, pela fachada de vidro, quatro mesas de madeira – madeira de verdade – e cadeiras de madeira – falsa – com uma imitação de design vitoriano que mais puxava para o gótico industrial, e sentiria um cheiro peculiar de açúcar e café. Se, enfim, essa tal pessoa hipotética, chamada pela curiosidade, familiaridade ou o que quer que fosse, decidisse atravessar a porta do Le Tarot, ouviria o barulho de sininhos e veria, lá dentro, os marrons, brancos e vermelhos do chão, toalhas e móveis, o balcão grande para o tamanho do lugar e os dois funcionários, ambos com o uniforme branco, vermelho e preto, estilo europeu, servindo os clientes ali. E, naquele dia em particular, encontraria também, em uma das mesas, uma garota asiática de jeito tímido e acuado com as mãos entre as pernas, um garoto italiano comendo animadamente um pedaço gordo de torta e uma garota eslava, de braços cruzados e expressão mandona. Três jovens de dezesseis anos, sentados ali.

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XXII – Capítulo 09

Foi num dia quente quando isso aconteceu. Não um desses dias quentes normais quando ainda dá para ficar dentro de casa sem lá muitos problemas, mas um daqueles dias em que tudo que se quer fazer é mergulhar numa piscina gelada e não sair de lá de dentro pelo resto da vida. Com um Sol muito brilhante e quente, mais brilhante e mais quente ainda no centro daquela cidade, refletida nos vidros lisos dos edifícios altos e no asfalto. Os telões nos altos dos edifícios anunciavam todos bebidas refrescantes com imagens de mulheres de biquíni na praia – todas com peitos enormes e maquiagem, aparentemente, a prova de água. As pessoas ao redor andavam, todas tão apressadas, ocupadas pensando em nossa como estava quente, eu vou chegar atrasada, bem que podia chover, eu devia ter vindo de vestido, porque eu tenho que usar sutiã, malditos ternos, essa cidade é quente demais, eu vou me mudar assim que possível, está tudo errado aqui, que fome, tem alguma coisa errada acontecendo aqui, droga de celular que não funciona, essa música é bacana, quem é essa aí parada feito uma idiota?

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XXII – Capítulo 07

O feed da câmera mostrava as pessoas entrando na nave. Alguns dos rostos eram familiares, gente grande – membros do conselho municipal, empresários, socialites. A nata da cidade. Todos indo para o mesmo lugar. A nave de luxo.

Ekaterina levantou o visor. De cima do muro, dava para ver a nave. A segurança era grande, pelo menos uns vinte guardas armados, bem equipados. Invadir o ponto de lançamento era o de menos, até entrar sem ser percebida não seria o maior de todos os desafios. Normalmente. Aquela, entenda-se, não era uma situação normal. Do lado de fora da pista de lançamento, colada no muro, ainda com o vestido preto, Marie, com a cara de uma lagarta irritada, batia os pés no chão. A veemência do olhar da garota fez, por um instante muito bem delineado, Ekaterina considerar sinceramente chutá-la dali. Acabou preferindo simplesmente saltar de cima do muro e pousar uns centímetros à frente dela, só para um susto leve que não saiu bem como ela esperava.

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XXII – Capítulo 06

Doce demais. Por isso nunca pedia o de morango. Ekaterina sentou o milk shake na mesa e correu o olhar pelo resto da praça. As outras mesas estavam ocupadas, a maioria com casais de jovens com camisas curtas e garotas com short-saias. Estavam na moda. Não era estranho. Apesar de curtos, eles não deixavam nada a mostra. Eles tinham toda balanci…dez? de saias com a praticidade de shorts. Ekaterina puxou a barra de sua calça um pouco para baixo. A calça de corrida era confortável, mas talvez estivesse ficando curta. Enquanto ajeitava a calça, Ekaterina acabou passando o olhar por cima de Marie, sentada na grama com o sorvete na mão e obviamente derretendo com todo o calor.

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