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Contrafação – Epílogo

A luz descia do topo, dourada, iluminando as incontáveis prateleiras de madeira, carregadas com infinitos livros, crescendo em círculos concêntricos até muito além de onde os olhos podiam ver. Sentada numa cadeira no centro de tudo, estava uma garota. Ela não era especial e nem muito significante. Era só uma garota que gostava de ler vivendo num mundo de livros.

Ela se virou para mim e falou.

 

Abri os olhos.

Estava deitada numa cama de um quarto pequeno. Pela janela, dava para ver, lá longe, a cidade. Meu corpo doía um pouco ainda, minha cabeça não estava exatamente no lugar. Na minha mão direita havia agora um desenho avermelhado, como uma tatuagem. Deixei minha mão despencar e fiquei olhando para o teto.

“Ainda tem muitos livros para ler. Vou deixar isso por sua conta”.

Suspirei.

— Então até uma cópia pode sonhar…

Contrafação – Capítulo X

Empurrei a porta do último andar e saí do fosso do elevador. Ele dava direto na entrada da cobertura. Toquei a porta e senti, claramente, a barreira mágica erguida ali, poderosa demais para que eu pudesse simplesmente dispersá-la rápido. Não havia janelas ali, então a única entrada era a porta.

Forcei a maçaneta e entrei. Continuar lendo Contrafação – Capítulo X

Contrafação – Capítulo IX

Esperei o Caçador se afastar com Mime o suficiente para não notar quando eu comecei a segui-lo. Ou melhor, quando comecei a seguir o rastro vermelho deixado por Mime graças à Magia que coloquei nela. Ele a levou primeiro para o que me pareceu um esconderijo, um barracão na Zona Leste, no meio de uma favela. Ao redor do barracão, havia pelo menos uns sete cachorros rondando. Me mantive longe o suficiente para eles não me notarem, escondido na laje de um barraco, observando a movimentação dentro do cativeiro com um binóculo. Demorou para o Caçador sair da forma que ele mantinha na rua, mas quando o começou… talvez não devesse, mas não consegui evitar a surpresa.

Foi como se uma cortina de correntes de repente caísse, perdendo sua forma original, assumindo aquela de algo que, de longe e apenas levemente, lembrava o esqueleto de um homem, se não na estrutura, ao menos no perfil ou qualquer coisa de aparência. Um esqueleto de correntes, cinzento e enfraquecido, totalmente construído pela infinidade de elos. Talvez um dia aquilo tivesse sido humano, mas mesmo que esse fosse o caso, àquela altura já não tinha mais nada de humanidade sobrando naquilo. Continuar lendo Contrafação – Capítulo IX

Contrafação – Capítulo VIII

Um som estranho vinha de algum lugar, como um martelo batendo na madeira, mais e mais forte a cada segundo, até parar. Minha cabeça doía o suficiente para eu querer que ela simplesmente explodisse de uma vez por todas se isso fosse fazer a dor ir embora. Tentei mexer os braços para me levantar, mas não conseguia tirar eles do lugar. Forcei e comecei a sentir as correntes ali, nos meus pulsos. Quando tentei mexer as pernas, as senti nos tornozelos. Presa.

Eu estava no meio de um sótão que parecia servir como depósito, julgando pela quantidade de objetos variados que estava simplesmente jogada ali. Parando para pensar agora, era estúpido da minha parte estar surpresa naquela situação. A informação na hora não surgiu assim, tão rápido, mas era óbvio o suficiente o que estava acontecendo. Continuar lendo Contrafação – Capítulo VIII

Contrafação – Capítulo VII

Pelas 17h do dia seguinte, tudo estava pronto. Pouco antes disso, a resposta do meu amigo policial finalmente chegou, entregando a mim um endereço onde, segundo ele, o homem que levou Mime até Frankenstein morava. Às 19h, saímos da casa do meu pai direto par esse lugar.

Depois de uma hora de viagem muda, chegamos a uma casa abandonada pela história. Um dia, aquilo provavelmente tinha sido uma construção imponente e bem cuidada, adornada de estátuas, tapeçarias e janelas decoradas. Hoje, as estátuas sujas e quebradas nem mesmo choravam e dos vidros não sobrou nada. O portão estava aberto – o cadeado já devia ter se partido muito tempo antes. No quintal, pilhas e pilhas de lixo jogados, provavelmente, pelos vizinhos. Entre latas de cerveja e pedaços de madeira apodrecida, quebrada e suja, havia uma cruz de mármore. Ao vê-la, Mime suspendeu todo o seu movimento. Seu olhar, subitamente capturado pela imagem, ignorava tudo mais. A passos atrasados em anos, ela despencou até a cruz. Ajoelhada diante daquele pedaço de pedra, ela esfregou as mãos sobre o nome inscrito nos braços até fazê-lo surgir por completo, agora desgastado pela chuva e o mato. “Alexandra Schumann”. Continuar lendo Contrafação – Capítulo VII

Contrafação – Capítulo VI

Fomos de taxi até a loja do meu pai, o antiquário solene e discreto escondido num bairro qualquer. Destranquei a porta e entramos. A atenção de Mime logo foi sugada pelos objetos estranhos que ficavam eternamente largados nas prateleiras dali. Entre estátuas velhas e sujas e instrumentos misteriosos, ela tocou tudo que via. Quando se cansou, ela virou para mim.

— Você não devia avisar que chegou?

— Relaxa. Ele já sabe que a gente está aqui. Continuar lendo Contrafação – Capítulo VI

Contrafação – Capítulo V

Fomos seguindo por aquela rua e paramos no primeiro lugar aberto, um mercado, e pegamos qualquer coisa para comer. Os funcionários olhavam estranho para a gente, provavelmente por causa do suor e da minha roupa rasgada. Fingi que não vi. Pegamos umas bolachas e saímos. Paramos numa praça próxima dali, pequena e sem iluminação, com muitas árvores e cobertores largados, mas ainda vazia àquela hora.

— Pode começar a falar agora – eu disse. Continuar lendo Contrafação – Capítulo V

Contrafação – Capítulo IV

Esperei alguns minutos antes de começar a seguir Mime, apenas tempo o suficiente para que ela não desconfiasse de nada. O caminho dela seguia por algumas estações, mergulhando em direção à zona norte da cidade, até descer do vagão no terminal. De lá, ia para fora, descia escadas e escorregava pelas rampas, ganhava a rua, passava o Memorial e ia mais e mais a fundo, até, enfim, entrar num prédio. Um hotel, ou qualquer coisa equivalente, não muito grande e razoavelmente bem cuidado. “Bom”, para os padrões da região.

Fiquei alguns minutos observando a movimentação na entrada, mas só a recepcionista estava ali. Não parecia ter segurança – não era o tipo de hotel para onde quem se preocupa com isso vai. Lembrava, isso sim, os hotéis de filmes policiais. Naquela noite de lua clara, pairava qualquer coisa de noir sobre as cabeças dos prédios. Se alguém atiçasse bem o ouvido, talvez conseguisse imaginar um saxofone tocando ao fundo. Continuar lendo Contrafação – Capítulo IV

Contrafação – Capítulo III

Mime estava esperando fora do prédio, parada ao lado de um poste. Ao me ver descer, ela se aproximou, movendo a bolsa em direção à frente do corpo.

— Com isso, você fez a sua parte – ela disse. – Quanto fica?

— Ainda não acabou.

Ela olhou para mim, olhos apertados, cabeça virada de leve para o lado.

— Como assim? – ela perguntou. Continuar lendo Contrafação – Capítulo III

Contrafação – Capítulo II

Frankenstein era o tipo desconfiado, vivia sempre escondido, mudando sua localização de tempos em tempos e deixando seu endereço só com alguns poucos olheiros, responsáveis por levar os clientes até o estúdio dele. Encontrá-lo nunca era uma tarefa fácil, e não seria naquele dia.

Só lá pelas quatro encontramos um dos chamarizes do Frankentein e até chegar no estúdio atual, escondido no segundo andar de um prédio comercial, entre uma academia e uma farmácia, já era quase seis da tarde. Continuar lendo Contrafação – Capítulo II