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Deuses do Vazio – O dia seguinte

Eu estava juntando tudo que havia de meu naquela casa para ir embora. Olhei para aquele quarto estranho onde dormira durante aqueles dias. Já recolhera tudo que havia trazido e agora restava apenas o quarto que eu vira pela primeira vez uma semana antes. Vi então Íris entrar, sentar-se na cama, fitar o quarto a seu redor e então, com pesada melancolia, voltar-se para mim e sorrir.

— O que você vai fazer agora? – ela me perguntou.

— Não sei. Vou tentar voltar à minha vida normal, me formar, tentar fazer uma faculdade, me estabelecer. E eu estou pensando em continuar o trabalho da Perséfone. Devo pelo menos isso para ela.

— Então você vai virar um mago de verdade?

— Eu não posso simplesmente ignorar o que aconteceu. Eu nem conseguiria fazer isso. E você?

— Vou viajar. Ainda tenho muita coisa para ver por aí, descobrir. É um mundo grande o bastante para que alguém como eu possa se perder.

— E nós vamos nos ver de novo?

— Quem sabe. Um dia, talvez. Mas agora eu tenho que ir.

— Eu estou indo embora também. Eu te acompanho até o ponto.

— Seria um prazer.

Antes de sair daquele quarto, fui até a janela, abri-a e por uma última vez encarei o mundo dali. Era o fim do inverno e no céu cinzento havia promessas de azul

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Deuses do Vazio – Dia 9

IX

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O último dia. Talvez o meu último dia naquele mundo desconjuntado. Sempre me perguntei o que eu faria quando ele chegasse. Nunca consegui responder. Parecia algo tão longínquo. E mesmo assim, havia acontecido. Numa noite qualquer, quando fui tentar devolver o diário de uma garota que eu nem conhecia, eu morri. Porém eu fui salvo. Pensar que eu iria arriscar minha segunda vida tão pouco depois de recebê-la me fazia sentir um idiota.

No fim das contas, eu sou um idiota. Continuar lendo Deuses do Vazio – Dia 9

Deuses do Vazio – Dia 8

VIII

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Às duas da manhã estava no endereço marcado; um casarão abandonado numa rua do centro. As janelas estavam fechadas e não ouvia nada dentro do lugar. O portão aguardava aberto. Só havia mendigos e cães na rua. A porta do casarão estava aberta e ao entrar lá mal se podia enxergar. No andar de cima, acessível apenas por uma escada, ouviam-se passos. Não tinha dúvidas de que era uma armadilha, porém naquele momento só restava ir em frente. Continuar lendo Deuses do Vazio – Dia 8

Deuses do Vazio – Dia 7

VII

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Uma vez mais ele estava encarando o teto daquele quarto. Um suspiro vago, alguns olhares perdidos, e não houve nada mais. Fechou os olhos, revisitou as memórias. Se viu outra vez num prédio abandonado caindo ferido, encarando o escuro.

Abriu os olhos. Tateou aonde fora baleado. No abdômen havia um curativo não maior que sua mão, ainda um pouco quente e úmido do sangue e do suor. Apenas isso. Não sentia dor alguma, nem doença ou mesmo medo. Em fato, não sentia nada.

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Deuses do Vazio – Dia 6

VI

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Apenas tinha as batidas dos ponteiros a romper a escuridão do quarto e relembra-lo de que ainda vivia. Envolvido na escuridão inquebrantável, enrolou-se nos grossos lençóis para esconder-se dos olhos do quarto e do revelador tique-taque do relógio a tentar arrancar da cama e revelar o corpo fraco e pálido, o rosto asquerosamente comum, os olhos que nada tinham de especial, por diante do espelho e fazer encarar sua forma barata, e enfim, nada vendo que não escuridão, desaparecer junto a ela. Continuar lendo Deuses do Vazio – Dia 6

Deuses do Vazio – Dia 4

IV

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Olhou para o relógio, viu que era tarde demais. Ao redor o quarto estranho, o chão frio desconhecido, os móveis inseguros, o silêncio.

Alguém bateu à porta. Não respondeu. As batidas insistiram e insistiram até que ele enfim cedeu. Levantou-se, abriu a porta, Marcos apareceu do outro lado. Por alguns segundos, hesitou. As lembranças voltaram devagar e a resposta então surgiu. Era óbvio. Aquele homem estava em sua casa.

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Deuses do Vazio – Dia 3

III

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O pêndulo ia e vinha, o tempo girava a roda.

Uma arma perfurando o coração. Sangue escorrendo. O frio do chão. O calor do sangue. Imagens confusas passando devagar diante dos olhos. Batidas ritmadas de um tambor.

Um, dois, três, quatro, cinco.

Repetindo e repetindo, girando, luzes girando, vermelhas e azuis, brilhando, luz e escuridão. Uma canção descendo ao reino marinho, subindo à coroa celeste. Fogo ardendo no peito, Átropos refazendo o fio cortado.

Cinco, quatro, três, dois, um.

A roda girava o tempo, vinha e ia o pêndulo.

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Deuses do Vazio – Dia 2

II

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Daniel acordou tarde, mais cansado e mais dolorido do que no dia anterior. Se levantou com cuidado, se sentou, respirou fundo. Passava das oito da manhã. Tarde demais. Ele olhou pela janela de seu quarto. Era só mais um dia frio de inverno.

Na cozinha, Daniel ligou a televisão enquanto esperava o café esquentar. Na tela da tv um homem de terno noticiava as mesmas mortes, os mesmos roubos, as mesmas guerras, as mesmas mentiras, os mesmos produtos, o mesmo tempo tão normalmente incoerente. Não apareceu nenhuma outra nota sobre os corpos. Daniel ainda os via diante de si, a imagem aterradora se alternando com a outra imagem, o fantasma azul, amarelo e branco que pensou ter visto na multidão.

Pela janela, ele via mais um dia frio.

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