Arquivo da tag: ficção científica

XXII – Capítulo 10

Se alguém tomasse a primeira direita na avenida central, vindo do prédio da prefeitura, e de lá a segunda esquerda e a terceira direita – uma curiosa progressão – encontraria uma estabelecimento pequeno entre uma loja de departamentos e um prédio de escritórios. Uma dessas pequenas lojas com fachadas de vidro, enquadradas por duas árvores, com bancos na frente e uma placa vintage em que se lia “Le Tarot”. Se esse alguém parasse em frente à loja, veria lá dentro, pela fachada de vidro, quatro mesas de madeira – madeira de verdade – e cadeiras de madeira – falsa – com uma imitação de design vitoriano que mais puxava para o gótico industrial, e sentiria um cheiro peculiar de açúcar e café. Se, enfim, essa tal pessoa hipotética, chamada pela curiosidade, familiaridade ou o que quer que fosse, decidisse atravessar a porta do Le Tarot, ouviria o barulho de sininhos e veria, lá dentro, os marrons, brancos e vermelhos do chão, toalhas e móveis, o balcão grande para o tamanho do lugar e os dois funcionários, ambos com o uniforme branco, vermelho e preto, estilo europeu, servindo os clientes ali. E, naquele dia em particular, encontraria também, em uma das mesas, uma garota asiática de jeito tímido e acuado com as mãos entre as pernas, um garoto italiano comendo animadamente um pedaço gordo de torta e uma garota eslava, de braços cruzados e expressão mandona. Três jovens de dezesseis anos, sentados ali.

Continuar lendo XXII – Capítulo 10

Anúncios

XXII – Capítulo 09

Foi num dia quente quando isso aconteceu. Não um desses dias quentes normais quando ainda dá para ficar dentro de casa sem lá muitos problemas, mas um daqueles dias em que tudo que se quer fazer é mergulhar numa piscina gelada e não sair de lá de dentro pelo resto da vida. Com um Sol muito brilhante e quente, mais brilhante e mais quente ainda no centro daquela cidade, refletida nos vidros lisos dos edifícios altos e no asfalto. Os telões nos altos dos edifícios anunciavam todos bebidas refrescantes com imagens de mulheres de biquíni na praia – todas com peitos enormes e maquiagem, aparentemente, a prova de água. As pessoas ao redor andavam, todas tão apressadas, ocupadas pensando em nossa como estava quente, eu vou chegar atrasada, bem que podia chover, eu devia ter vindo de vestido, porque eu tenho que usar sutiã, malditos ternos, essa cidade é quente demais, eu vou me mudar assim que possível, está tudo errado aqui, que fome, tem alguma coisa errada acontecendo aqui, droga de celular que não funciona, essa música é bacana, quem é essa aí parada feito uma idiota?

Continuar lendo XXII – Capítulo 09

XXII – Capítulo 07

O feed da câmera mostrava as pessoas entrando na nave. Alguns dos rostos eram familiares, gente grande – membros do conselho municipal, empresários, socialites. A nata da cidade. Todos indo para o mesmo lugar. A nave de luxo.

Ekaterina levantou o visor. De cima do muro, dava para ver a nave. A segurança era grande, pelo menos uns vinte guardas armados, bem equipados. Invadir o ponto de lançamento era o de menos, até entrar sem ser percebida não seria o maior de todos os desafios. Normalmente. Aquela, entenda-se, não era uma situação normal. Do lado de fora da pista de lançamento, colada no muro, ainda com o vestido preto, Marie, com a cara de uma lagarta irritada, batia os pés no chão. A veemência do olhar da garota fez, por um instante muito bem delineado, Ekaterina considerar sinceramente chutá-la dali. Acabou preferindo simplesmente saltar de cima do muro e pousar uns centímetros à frente dela, só para um susto leve que não saiu bem como ela esperava.

Continuar lendo XXII – Capítulo 07

XXII – Capítulo 06

Doce demais. Por isso nunca pedia o de morango. Ekaterina sentou o milk shake na mesa e correu o olhar pelo resto da praça. As outras mesas estavam ocupadas, a maioria com casais de jovens com camisas curtas e garotas com short-saias. Estavam na moda. Não era estranho. Apesar de curtos, eles não deixavam nada a mostra. Eles tinham toda balanci…dez? de saias com a praticidade de shorts. Ekaterina puxou a barra de sua calça um pouco para baixo. A calça de corrida era confortável, mas talvez estivesse ficando curta. Enquanto ajeitava a calça, Ekaterina acabou passando o olhar por cima de Marie, sentada na grama com o sorvete na mão e obviamente derretendo com todo o calor.

Continuar lendo XXII – Capítulo 06

XXII – Capítulo 05

De olhos fechados, Ekaterina ainda ouvia o barulho do sinal, a conversa dos alunos, os passos nos corredores, o virar de páginas único daquela bibliófila inveterada, a voz alta daquele idiota. De olhos abertos, ela só ouvia o som do silêncio sobreposto às ruínas que saltavam da gigantesca cratera onde um dia tinha sido o Wittgenstein.

De cima do poste, a centenas de metros, a área inteira parecia abandonada. O que provavelmente não era o caso.

Continuar lendo XXII – Capítulo 05

XXII – 04

Zona Leste, distrito urbano velho, o “Elevado”. Originalmente, o projeto de conversão de uma via elevado num parque atraiu construtoras e iniciou um processo de transformação da área em um bairro de alto nível. A construção do parque, por razões pouco conhecidas e menos entendidas, jamais foi finalizada. O projeto de renovação da região foi abandonado e a construção de todos os edifícios interrompida. O planejado bairro rico e os futuros prédios de luxo se tornaram abrigo de gangues.

Nenhuma das lâmpadas naquela rua funcionavam. As únicas luzes que chegavam ali eram os reflexos dos holofotes, os brilhos de neons envelhecidos e os faróis das naves particulares que passavam voando por ali. Num bar improvisado, um grupo de seis jovens enchia a cara num bar improvisado com uma mesa mambembe, latas de lixo e uma relíquia que um dia provavelmente tinha servido para tocar música, mas que então se resumia a chiar como um velho forçado a trabalhar.

Continuar lendo XXII – 04

XXII – 03

Na pequena sala estufada de aparelhos velhos, fios, cabos e ferramentas largadas pelo chão, os monitores holográficos continuavam exercendo com precisão absoluta seu trabalho de exibir as imagens captadas pelas câmeras da cidade. O mesmo não se podia dizer daquele que deveria estar monitorando os monitores, Angelo. Recostado na cadeira, fones tapando os ouvidos, os peitos de Ada Olov tapando os olhos. Estavam perto, muito perto. Quase dava para sentir o calor, a textura macia. O sorriso de Angelo de monitores crescia a cada centímetro que encolhia a distância entre seus dedos os redondos, macios, deliciosos, peitos de Ada Olov. Só mais um centímetro e…

Os dedos atravessaram os peitos holográficos e os olhos se encheram com a mesa plástico no momento em que o a cabeça do monitor de monitores bateu, bem, na mesa de plástico. Normalmente, ao bater a cabeça numa mesa, uma pessoa grita de dor. Angelo gritou, mas mais de raiva do que de dor, enquanto girava a cadeira para trás e saltava dela.

Continuar lendo XXII – 03

XXII – Capítulo 2

Pan Reichenbach continuava inquirindo o quadro negro, mas as informações ali continuavam se recusando a fazer qualquer semblante de sentido, mesmo depois de horas. Era quase como se elas intencionalmente desafiassem alguém a resolver um problema que, no fundo, não tinha nenhuma resposta lógica. Com a questão pesando na sua cabeça, Pan se atirou na sua cadeira e pressionou aleatoriamente três botões. A música ambiente abaixou o suficiente para mal estar lá, mas ainda manteve o silêncio longe.

O relógio no topo do monitor principal dizia que Pan ainda teria que aguentar mais uma hora antes de ir para casa e poder assistir à reprise de algum filme, beber alguma coisa e dormir. Pan suspirou e abriu seu e-mail. Algumas mensagens novas, a maioria de trabalho, um convite para congresso e propagandas de produtos que ninguém em sã consciência iria comprar. Pan salvou uma das propagandas, afinal, quem sabe quando um espremedor de suco de alta velocidade com sistema automático de limpeza poderia ser útil? Especialmente quando se mora sozinho. O olhar de Pan voltou para o relógio. Nem um minuto tinha passado.

Continuar lendo XXII – Capítulo 2

XXII – Capítulo 1

É noite.

O lugar: região central, Décimo Quarto Distrito, a garagem fechada abandonada de uma transportadora, entre caminhões velhos, sobre graxa derramada no chão, sob as luzes piscantes de leds defeituosos.

Os indivíduos: quinze, todos jovens, vestidos em jaquetas, calças rasgadas, rostos cobertos por máscaras de coelho – números baixos da Alice Negra – armados de bastões elétricos, alguns com pistolas.

Continuar lendo XXII – Capítulo 1